Família

Bombeiro fala sobre o fim das buscas pelos desaparecidos em Brumadinho: “É a notícia que não quero dar”

205 pessoas ainda não foram localizadas

Emily Santos

Emily Santos ,filha de Maria Teresa e Francisco

O tenente Pedro não quer ser o porta-voz da noícia (Foto: reprodução/Instagram/@pedroaihara)

No cenário da tragédia de Brumadinho (MG), as pessoas com membros da família desaparecidos tendem a buscar consolo no trabalho árduo feito pelas equipes de resgate, mas dez dias depois da barragem da mineradora Vale ceder, muitos só querem velar o corpo dos entes queridos.

“Nosso objetivo é sempre entregar as pessoas salvas, com vida. Se não é possível, a gente tenta entregar um corpo para a família velar, porque sabemos que isso vai diminuir o sofrimento”, afirmou o tenente Pedro Aihara, de 25 anos, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, em entrevista ao Estadão Conteúdo.

Desde cedo na vida militar, Pedro reforça a importância da sensibilidade no momento de lidar com as famílias que esperam por notícias das pessoas que ainda não foram localizadas, 205 de acordo com o último balanço divulgado no fim da tarde do último domingo (3).

“Eu venho com a perspectiva do familiar que perdeu uma pessoa e está nos assistindo em um momento delicado, de muita dor. Minha preocupação é com a pessoa que foi afetada de alguma maneira, que ela se sinta minimamente acolhida. Que ela possa perceber que está sendo feito um trabalho de responsabilidade”, disse em entrevista.

Imagem aérea da lama resultada do rompimento da barragem (Foto: Polícia Militar de Minas Gerais / Divulgação)

Mas o tenente conta que não é fácil manter a serenidade em um cenário tão desolador, tendo que lidar com pessoas tão emocionadas: “Tem hora que a gente tem de respirar fundo para retomar a tranquilidade”, revelou, em entrevista.

E assim continuar com o trabalho, que no momento é só no que algumas pessoas conseguem pensar, em ver seus entes queridos novamente. Mas ele avisa que vai ficando cada vez mais difícil de encontrar os desaparecidos, e que uma hora não vai ter mais nada que o Corpo de Bombeiros poderá fazer.

“Daqui a algum tempo de operação – e isso vai demandar alguns meses -, com o estado avançado de decomposição dos corpos, eles se misturam à lama. A quantidade de rejeito envolvida, o tamanho da área afetada pela tragédia, o fato de os corpos estarem muito espalhados, tornam algumas recuperações realmente impossíveis pela questão biológica mesmo”, explica.

O tenente Pedro teme que, eventualmente, ele tenha que anunciar o fim das buscas. “Esperamos que antes disso a gente tenha conseguido encontrar o maior número de corpos possível. Essa notícia de encerrar as buscas sem ter encontrado todo mundo, acho que vai ser o momento mais difícil dessa operação. É a notícia que eu não quero dar. Não quero ser o porta-voz dessa tragédia“, finalizou, em entrevista ao Estadão Conteúdo.

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