Onde foi que eu acertei?

Nós temos a péssima tendência a focar nos erros, mas você pode mudar o ponto de vista

Tão acostumado com a autocobrança permanente, tomei um sustão quando meu filho participou de uma entrevista comigo nesta semana. Questionado se eu errava muito como pai (cada pergunta, né?), ele, no auge da cruel adolescência, responde generoso: “Não, não tenho nenhuma reclamação importante sobre meu pai. Ele acerta muito mesmo.”

Os acertos e erros fazem parte da parentalidade, e está tudo bem (Foto: Shutterstock)

Até chorei porque a gente não espera um reconhecimento desses… Em vida! Convenhamos, lá no fundo sabemos que também acertamos, mas a verdade é que cultivamos a crença de que erramos muito mais. E sabe por quê?

Tenho uma teoria. Bora lá começar com a premissa: nossos pais erraram bastante com a gente. Nos criaram com preconceitos, em meio a crenças tóxicas, nos puseram de castigo nas horas erradas ou nem sempre nos incentivaram da melhor forma. E tá tudo bem, passou. Sobrevivemos com alguns arranhões, mas cá estamos. E quando chega a nossa vez, assim que sabemos da gravidez, prometemos não repetir com nossos filhos os erros que eles cometeram com a gente.

Ou seja, nossa primeira decisão como futuros pais é a de “errar menos”. Santa programação neurolinguística, por que diabos não pensamos em “acertar mais”? Ora bolas, sempre este maldito foco no erro.

Depois, é a vez dos palpites. Chegam de todos os lados para reforçar seus erros. Cada pessoa ao seu redor tem a solução para absolutamente todos os desafios da sua paternidade ou maternidade. Todas, menos você.

Superada a fase asfixiante dos palpites (segredo: eles nunca acabam, nós é que nos acostumamos), vem a etapa das comparações. Tipo prova de revezamento com obstáculos, a vida do outro é sempre mais suave. “A gente tá fazendo tudo errado!”, é a única conclusão possível.

Calma! Respira! A chupeta, o uso do eletrônico, os nuggets ou até mesmo a mamadeira mais quente do que deveria, nada disso, entenda, faz alguém menos bom. O que os manuais não nos dizem é que numa jornada de 24 horas, entre fraldas, lições de casa e cafés frios deixados em algum lugar por aí, você e eu acertamos muito mais do que erramos.

Aliás, muito provavelmente, e esta é a conclusão oficial da minha teoria: você não foge, apesar da vontade cotidiana, porque os acertos vão se somando na construção destas mini pessoinhas especiais que você está criando. E, lá no futuro, elas vão lembrar do amor que você entregou, não importa se no erro ou no acerto. Porque a grande verdade é que quem ama, erra acertando e acerta errando. E quer saber? Tá tudo bem. Bola pra frente!