Educação inclusiva na prática

É preciso tomar atitudes, para além das hashtags em redes sociais. Vamos juntos nessa

**Texto por Lari Moraes, professora, idealizadora e coordenadora do projeto “Afroativos: solte o cabelo, prenda o preconceito”, mãe de Thiago

Vamos valorizar a nossa cultura plural (Foto: Shutterstock)

Decidi criar o programa ‘Afroativos: solte o cabelo, prenda o preconceito’ em 2017. A formação do grupo teve origem em minha sala de aula quando uma aluna de 10 anos expressou, através de uma carta, o que parecia ser a angústia (que nem sabia nomear) sobre o que havia de errado com o próprio cabelo.

“Quando falam do meu cabelo, eu fico com um aperto no coração. Isso não ‘me entra’. Eu não consigo acreditar que isso me machuca muito. O que tem o meu cabelo? Eu não sei mesmo?”,  dizia um trecho do relato.

O conteúdo da escrita, infelizmente, não correspondia a um caso isolado, e sim, trazia à tona dores de incontáveis mulheres negras através dos tempos, inclusive minhas feridas que, mesmo após décadas, continuavam abertas. Iniciei o meu processo de transição capilar, por incentivo de alunas e alunos, após mais de duas décadas de procedimentos químicos. O que mais me entristecia, era saber que mesmo após anos, a sensação de “não lugar”, de querer sentir-se invisível continuava a atormentar a existência de tantas meninas.

A partir do relato da aluna e da reação de indignação de suas/seus colegas, iniciamos um período de pesquisas na internet, em livros, conversas com representantes dos movimentos negros locais, pois tínhamos como objetivo a busca por uma alternativa de solução não violenta para o tratamento da questão. Embora, o racismo seja uma violência em diversas esferas, pois trata-se de uma estrutura que rege as relações humanas e determina desigualdades, reagir com a mesma moeda aumentaria o problema e não resolveria o caso.

Em meio ao processo de procura por respostas, recebemos a imagem de uma menina com o cabelo estilo Black Power e dentro dele estava escrita a mensagem: “Solte o cabelo e prenda o preconceito”. A frase de efeito com significado profundo e potente que remete à nossa história, ao nosso orgulho e nossa ancestralidade deram o tom ao ponto de partida: nossos cabelos são um ato político, se algo devia estar preso e/ou escondido, que fosse o preconceito, a intolerância e o racismo.

A campanha, que inicialmente tinha como público-alvo a nossa comunidade escolar, ultrapassou os muros da instituição. Hoje, o Afroativos atende cerca de 300 alunos divididos em três grupos de estudos e mais dez turmas dentro do currículo da Escola Municipal de Ensino Fundamental Saint’Hilaire – bairro Lomba do Pinheiro – na periferia de Porto Alegre/RS. Iniciando com turmas de educação infantil, pois é urgente que façamos um trabalho de base nas escolas

A  proposta é estimular o empoderamento através do conhecimento, conscientização e transformação. A iniciativa, protagonizada por crianças e adolescentes da Vila Panorama, ocorre em seu quarto ano consecutivo. Acumulamos, ainda, uma agenda externa que atende demandas de outras escolas com oficinas para alunos, formação para educadores e participação em eventos diversos.

Apostamos no que denominamos AFROBETIZAÇÃO que, de acordo com o conceito criado pelo grupo de estudos, seria o “passar a limpo” de um rascunho repleto de estereótipos apresentado como única possibilidade de história/memória africana e afro-brasileira. O calendário Afroafirmativo faz parte da iniciativa. Tem objetivo de contribuir para a valorização da história africana e afro-brasileira trazendo mães e avós de sua comunidade como protagonistas.

A união é a resposta (Foto: Shutterstock)

Calendário Afroafirmativo

O nome escolhido para o grupo refere-se as ações realizadas com o intuito de promover transformações. Somos Afroativos, porque agimos para que mudanças ocorram. Seguindo essa premissa, em nossas reuniões de planejamento, debatemos e buscamos alternativas pedagógicas que sirvam como aliadas à educação antirracista.

Uma das atividades que tiveram projeção nacional e internacional foi lançada no ano de 2019, fruto de longos meses de pesquisa e execução. Assim, nasceu o nosso primeiro calendário Afroafirmativo, que trazia alunos negros da nossa escola como protagonistas em locais que marcavam a presença africana e afro-brasileira na cidade de Porto Alegre/RS. Além disso, o grupo pesquisou datas importantes para a cultura afro, mês a mês (pois as mesmas não constam em calendários convencionais) e disponibilizou a versão virtual.

A pandemia adiou os nossos planos de lançamento do calendário 2020. Somente, ao final do mês de novembro deste ano, conseguimos concretizar o lançamento do calendário 2021 em uma live na página do projeto apresentada por uma mãe e uma avó da nossa comunidade. A edição mais recente traz essas mulheres negras movendo estruturas e assumindo a centro da narrativa protagonistas do processo junto de suas famílias.

As Garotas do Calendário Afroativos 2021 foram fotografadas em locais significativos do nosso bairro. O material possui duas versões: a virtual gratuita e a versão impressa comercializada para custear a primeira publicação do projeto (que funciona através de esforços e recursos próprios), chamada “Desabafos Poéticos”, uma coletânea de poemas autorais de alunas, alunos, mães, avós e da professora, aqui – que dá os seus primeiros passos na escrita poética num exercício de autoanálise e de evolução junto com a família Afroativos.

O calendário 2021, assim como o livro “Desabafos Poéticos” fazem parte do projeto “Nossa gente, nosso território” que será aprofundado ao longo de 2021. Aqueles que quiserem adquirir o calendário e/ou o livro para apoiar a continuidade do trabalho, enviamos para todo o Brasil. Afinal de contas, é importante levarmos o antirracismo para além das hashtags em redes sociais.