Longe, mas próximo: a rede de apoio nos faz ser mais nós mesmas

Nunca pensei que estar próximo de brasileiros, me faria retomar o meu passado e valorizar toda minha história

Há algo nos nossos olhos, nos traços, no nosso olhar, que denuncia quem somos e nossa origem – nossa ginga de brasileiro. Não há lápis preto ao estilo europeu, bem marcado nos olhos, esfumado, nem cor de sombra ou penteado que disfarce o que há por trás da imagem que queremos passar. Nem mesmo de bota estilo coturno e casacão de inverno a gente consegue “esconder” nossa brasilidade. Olhou… Pá! A gente já dá até “oi” bem brasileiro que é pra não deixar um de nós passar batido sem o nosso calor em terras frias.

A rede de apoio é como um abraço, mesmo à distância (Foto: Shutterstock)

Tem gente que chega aqui – ou qualquer outro lugar – e já procura a comunidade brasileira, seja em busca de ajuda prática ou de acolhimento. E tem gente que quando vai morar fora quer distância de tudo relacionado ao Brasil e nosso povo. Respeito. Mas confesso que não estava nos meus planos práticos me juntar à comunidade brasileira aqui em Londres. Nunca pensei que sim, nem que não. Simplesmente não vislumbrei essa possibilidade lá atrás, quando cheguei. Eu, que já morei aqui na minha infância e tenho vários amigos ingleses, nunca achei que teria dificuldades para me misturar.

Não posso dizer que tive dificuldades. Tenho amigos ingleses e de outras nacionalidades. Londres é uma cidade de todos. Democrática, digamos. Mas fato é que junto aos brasileiros a gente se sente mais nós mesmos. Se teve uma coisa interessante nesse contato mais direto foi a troca de dicas por aplicativo de mensagens de celular, o Whatsapp. Há um grupão de mulheres brasileiras que trocam dicas sobre tudo. Tudo! Desde qual panela comprar, o creme pra pele que muda por aqui, o produto de limpeza para o banheiro e para tirar as marcas da água estranha que temos por aqui, até dicas de viagem, móveis para vender ou trocar. Gente! Tudo!

E não para por aí. Os grupos de mensagem também se subdividem por região e assim se estendem às dicas mais locais como cabeleireiro, mercados, escolas, produtos com bons preços e, claro, os encontros para o cafezinho pertinho de casa. Esses encontros são fundamentais para quem está chegando e são vitais no inverno, quando a deprezinha bate e a gente estranha aquela sensação de vazio que chega junto com a escuridão às 3 horas da tarde.

É a partir desses grupos que famílias se descobrem e formam laços fortes de amizade. Sem perceber, a gente vai mapeando quem tem os filhos na mesma fase, passa a se encontrar com frequência, conhece os amigos dos novos amigos e troca dicas de tudo e de escola e de vida. É um troca-troca intenso. As mensagens não param, mas pode ter certeza que tem muita coisa lá que pode ajudar.

A gente muda de país e parece que se abre mais para a vida. Abre os olhos, olha para os lados e olha com ainda mais compaixão para o próximo. Diria que a gente passa a ter mais carinho com a gente mesmo e até com o nosso próprio passado, com a nossa história. Independentemente dos planos daqui para frente, o importante é investir no hoje e no nosso bem-estar. E por que enfrentar o turbilhão de ser imigrante sozinho se você pode ter tanta luz, não é mesmo? Informação e comunicação podem fazer muita diferença na adaptação à vida fora do país. Aproveitemos a tecnologia.