Uma a cada 4 crianças no mundo tem transtornos mentais: saiba como cuidar da saúde mental do seu filho

A saúde mental não deve ser deixada de lado na infância. Desenvolver-se em um lar confiável, confortável e cheio de amor faz toda a diferença para o amadurecimento saudável de uma criança e a transformação de um adulto feliz

Resumo da Notícia

  • Janeiro branco é o mês dedicado à conscientização aos cuidados relacionados à saúde mental e emocional
  • A preocupação em relação à saúde mental não deve ser apenas entre adultos e idosos, a questão também exige atenção na infância
  • Os pais devem ficar de olho aos sinais e procurarem especialista quando identificarem algum problema

Por mais que muitos adultos pensem que crianças não costumam ter complicações relacionados à saúde mental, isso não é verdade. Ainda pequenas, é possível que sentimentos de rejeição, abandono ou ansiedade possam evoluir e causar sérios problemas que vão afetar o desenvolvimento saudável na infância e trazer consequências até a vida adulta.

-Publicidade-
Não dá para deixar a saúde mental para depois
Não dá para deixar a saúde mental para depois (Foto: Shutterstock)

Janeiro Branco é o mês dedicado à conscientização aos cuidados relacionados à saúde mental e emocional das pessoas. O primeiro mês do ano foi escolhido pelo valor simbólico e cultural que ele carrega – é nesse mês que se costuma planejar as metas para o novo ano e repensar sobre a vida e as relações sociais. Cuidar mais da própria saúde mental também deve entrar nessa lista.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma em cada quatro pessoas sofre com algum transtorno mental. O Brasil é o país com mais pessoas ansiosas no mundo: estima-se que ao menos 9,3% da população, ou seja 18,6 milhões de brasileiros convivem com essa condição.  Segundo o IBGE, a depressão aumentou em quase 35% nos últimos seis anos. No Brasil, dos 69 milhões de pessoas com 0 a 19 anos, há registro de 10,3 milhões de casos de transtornos. Entre adultos com transtornos mentais, 48,4% deles tiveram o início do transtorno até 18 anos. Além disso, supõe-se que uma a cada quatro crianças no mundo apresentou algum tipo de transtorno psíquico. Por isso, esse assunto não pode passar despercebido.

A importância da saúde mental na infância

A saúde mental é resultado de uma combinação de fatores como hábitos de vida, experiências, genética, relações e vínculos. A soma desses elementos pode levar tanto à saúde quanto ao desenvolvimento de distúrbios emocionais e mentais. Na criança não é diferente. “As experiências adversas na infância, como negligências, abusos, violências, bullying e falta de segurança afetiva são especialmente prejudiciais à saúde mental da criança e podem gerar sintomas que perduram até a vida adulta”, afirma a psicóloga Ediane Ribeiro, filha de Maria Madalena e Antônio Xavier.

A saúde mental na infância é fundamental para o desenvolvimento de um adulto feliz
A saúde mental na infância é fundamental para o desenvolvimento de um adulto feliz (Foto: iStock)

Nos primeiros anos da vida, o sistema nervoso está em processo de maturação e as experiências vividas nessa fase podem causar alterações no desenvolvimento adequado e das funções ligadas a ele, como raciocínio, memória, controle de impulsos, planejamento e capacidade para criar vínculos. “A manutenção da saúde mental é fundamental durante a infância para que a criança consiga atingir o máximo da sua vivência e da sua capacidade de inteligência na vida adulta, já que é na infância que ela se prepara para tal”, aponta o médico neurocirurgião e neurocientista Dr. Fernando Gomes, pai de Fernando, Amanda, Fred e Lara.

A saúde mental é importante do início ao fim da vida. O sistema emocional de uma criança influencia diretamente o comportamento, sentimentos e ações que ela terá ao longo dos anos. Por isso, o cuidado com a saúde mental nessa fase impacta diretamente em quem a criança vai se tornar e como ela vai se relacionar consigo mesma e com o mundo à sua volta na vida adulta.

Atento aos sinais

A saúde mental não deve ser motivo de preocupação apenas entre adultos ou idosos, as crianças também podem sofrer com distúrbios emocionais. O grande problema é que elas nem sempre conseguem entender o que está acontecendo ou expressar aquilo que estão sentindo. Por isso, os pais e responsáveis devem ficar em alerta para perceber os sinais e se esforçarem para ajudar a resolver os problemas ainda na infância, para que eles não sejam levados ao longo da vida.

A infância deve ser livre de preocupações e tristezas. Ainda que muitas crianças possam passar por experiências negativas, são os acontecimentos sucessivos que, a longo prazo, vão resultar em problemas emocionais e comportamentais no futuro. A psicóloga Ediane apontou alguns sinais que são mais fáceis de identificar para os pais e adultos próximos à criança ficarem atentos:

  • Mudanças bruscas de comportamento sem causa aparente
  • Agitação e nervosismo em situações cotidianas
  • Apatia e falta de disposição para fazer coisas que antes ela gostava
  • Alterações no sono, como insônia recorrente, que podem vir acompanhadas de pesadelos frequentes
  • Tendência ao isolamento e a querer evitar situações de contato com outras crianças ou com adultos
  • Alterações importantes nos hábitos alimentares
  • Queda no desempenho escolar

“Mas é preciso atentar-se também a sinais que podem ser mais sutis. Uma criança que fica muito quietinha e é muito envergonhada, por exemplo, pode ser considerada tímida e na verdade já ser um sinal de alguma questão emocional”, ressalta Ediane.

O Dr. Fernando diz que alteração do comportamento, na forma em que a criança se relaciona com outras pessoas, no sono, na alimentação, e no desempenho escolar são alguns dos aspectos que podem noticiar problemas relacionados à saúde mental. “Criança deprimida pode roer unha, ser agressiva com ela mesma ou com outras crianças, jogar brinquedos no chão, etc… esses podem ser sinais de depressão que nem sempre se manifestam como tristeza”, diz.

4 maneiras de promover a saúde mental do seu filho

Conversar, escutar, acolher e dar suporte são atitudes que fazem toda a diferença quando o assunto é promover a saúde mental de crianças e são os primeiros passos a serem tomados para evitar que problemas graves aconteçam.

Os pais têm total influência no desenvolvimento do filho, isso porque são eles os maiores exemplos que a criança vai ter ao longo da infância. “As crianças possuem o cérebro em desenvolvimento e captam muito as variações mentais e emocionais dos adultos que fazem parte da vida dela”, fala Dr. Fernando.

Os padrões de vínculos estabelecidos entre pais e filhos nos primeiros anos de vida são fundamentais para garantir que as crianças tenham saúde mental. “A experiência emocional na infância é um mundo totalmente novo para a criança, que muitas vezes não sabe identificar nem expressar o que sente, por isso a sintonia entre ela e os adultos que a cuidam é tão importante”, afirma Ediane.

1. Criança é criança!

Seu filho precisa brincar, se divertir, se expressar e ser criança! Ainda que tenha algumas responsabilidades, a brincadeira não deve sair da rotina. É brincando que a criança aprende coisas novas, explora o mundo ao seu redor, solta a imaginação e consegue se expressar. Brincar com o seu filho vai fortalecer ainda mais os vínculos entre vocês e dá-lo confiança para se abrir.

A brincadeira é fundamental para a criança
A brincadeira é fundamental para a criança (Foto: Getty Images)

Além disso, é brincando com os filhos que os pais também auxiliam na saúde mental da criança, ao oferecerem uma rotina equilibrada de atividades, alimentação e sono. Sem sobrecargas e com espaço para a brincadeira e o lúdico.

2. Abra o jogo

Não esconda o que está acontecendo. As crianças são capazes de perceber quando algo não está bem. Esconder a situação só vai transmitir que você não confia nela e, portanto, ela não pode confiar em você. Culpa e solidão também são sentimentos negativos que podem acompanhar essa questão.

Assim como os adultos, os pequenos também têm sentimentos, a diferença é que muitas vezes eles podem não saber como transmiti-los. Por isso, é fundamental que os pais criem um ambiente confortável para diálogo e estejam atentos para qualquer sinal de problemas. Para isso, valorize as emoções, opiniões e a personalidade do seu filho, mas sempre corrija com amor as condutas ruins de comportamento. Determinar e negociar limites é necessário. “Os limites oferecidos com amorosidade dão à criança a sensação de segurança, de que alguém cuida dela e aumentam a sensação de pertencimento”, aponta a psicóloga.

Abra o jogo com o seu filho sobre tudo que está acontecendo em casa
Abra o jogo com o seu filho sobre tudo que está acontecendo em casa (Foto: Getty Images)

Com muito cuidado, converse e compartilhe com o seu filho os assuntos familiares que se relacionam diretamente com a vida dele. Responder as perguntas que as crianças fizerem também vai indicar que você se importa e está apto a ajudá-las sempre que necessário.

3. Muito amor envolvido!

O carinho, o toque, palavras de admiração e respeito são fundamentais dentro de um lar. Se sentir pertencente e amado por uma família é o essencial para que uma criança cresça de forma saudável e apta a estabelecer boas relações interpessoais no futuro.

Cada pessoa expressa os sentimentos de forma única e está tudo bem! O que realmente importa é que a criança saiba que a casa dela é um lugar seguro, confortável e cheio de amor. Invista tempo de qualidade para estar ao lado do seu filho e passar bons momentos junto a ele.

Cuidar da saúde mental dos filhos exige autoconsciência de suas atitudes. “São os pais quem representam o enriquecimento possível do estimulo do ambiente externo, já que é em casa que a criança tem o seu desenvolvimento baseado naqueles adultos quem os cuida”, comenta o neurocientista.

Se os pais têm tendência a manifestar problemas emocionais, as crianças podem vir a ter mais facilidade em sofrer o mesmo. “Uma casa onde não haja equilíbrio de relacionamento e preocupação de ensinar a lidar com as questões do dia a dia pode resultar em crianças com déficit de saúde mental e emocional”, ressalta Dr. Fernando.

4. Inteligência emocional

A infância é uma fase da vida cheia de aprendizados. Querendo ou não, a gente sabe que uma hora ou outra o seu filho vai enfrentar problemas como brigas com os colegas da escola, notas baixas ou conflitos familiares. Isso é normal! O seu papel é ensinar a criança a resolver essas situações de forma saudável.

Ajudar o seu filho a desenvolver inteligência emocional é fundamental para que ele aprenda a reconhecer diferentes sentimentos, aprender a lidar com os próprios sentimentos, como medos, frustrações, perdas, e inclusive compreender as emoções do outro.

Além disso, quando os pais fazem tudo pela criança, ela não desenvolve autonomia e pode se tornar uma pessoa emocionalmente dependente. Já quando os filhos são ensinados a buscar soluções, eles aprendem a lidar com os acontecimentos e a ser emocionalmente inteligentes.

Caso a criança claramente apresente sinais de distúrbios psíquicos como depressão e ansiedade, os pais devem procurar um psicólogo, marcar consultas e acompanhar de perto o tratamento do filho. Se a saúde mental for devidamente valorizada na infância, a criança se transformará em um adulto confiante e saudável.