Marcos Piangers e Ana Cardoso mostram que a frustração faz parte da paternidade e maternidade

Durante a educação e criação do seu filho terão momentos em que você vai achar que está fazendo tudo errado e sua “qualidade” como pai e mãe será colocada em prova. Mas nossos colunistas têm duas experiências para compartilhar que vão te tranquilizar

Marcos Piangers e Ana Cardoso, pais de Anita e Aurora, escrevem todo mês sobre a perspectiva de maternidade e paternidade deles para trocar experiências com você e ajudar na construção da família (Foto: Reprodução/ Instagram)

A gente ama este casal! Ana Cardoso e Marcos Piangers todo mês escolhem um tema do universo familiar para debater e você sempre vai encontrar dois pontos de vista: o de mãe e o de pai

  • Ele diz

Um passeio no shopping

A paternidade, a longo prazo, é extremamente gratificante, preenche um vazio existencial, permite que você se sinta eterno, desperta o orgulho de ter formado um cidadão que pode fazer uma diferença positiva no mundo. Mas em curto prazo, no dia a dia, existem pequenas coisas que colocam esse plano maior à prova, nos dando uma vontadinha de desistir. Por exemplo, uma ida ao shopping center com duas filhas. A filha mais velha normalmente está falando, porque é isso o que as adolescentes fazem quando estão acordadas – algumas também fazem quando estão dormindo: falam. Ela vai estar falando sobre comprar uma mochila nova, ou pulseiras de zíper, ou qualquer outro apetrecho colorido que você não vai entender muito bem o que é ou pra que serve, e terá nome esquisito como niddles, ou poppies, ou booblebis.

A mais nova estará chorando, indignada com a necessidade de sentar em uma cadeirinha para crianças, presa por um cinto de segurança. Você terá muitas vezes vontade de deixá-la sem cinto, sem cadeirinha, e talvez até com a porta meio aberta. Ao finalmente conseguir estacionar, a mais velha estará chorando porque você disse que não vai comprar niddles ou poppies ou booblebis e a mais nova estará dando chutes no encosto para cabeça do banco do motorista. Agora você tirou a mais nova da cadeirinha, mas a mais velha se recusa a sair do carro. Depois de alguma conversa, a mais velha sairá, mas a mais nova estará chorando agora. Para acalmá-la, você permitirá que ela ande na escada rolante 13 vezes, subindo e descendo pela escada do lado, para então, finalmente, poder entrar de fato no shopping.

Piangers acredita que a paternidade ativa faz total diferença na vida das crianças (Foto: Evelen Torrens)

Dentro do shopping haverá paradas nas lojas de doces, de balões, de sorvete, de celulares, e, é claro, nas lojas de brinquedos. Em cada uma das lojas haverá uma compra ou uma conversa longa sobre como não existe a possibilidade de você comprar, por exemplo, um chiclete de R$16. Em cada parada você perderá uma filha, porque enquanto uma para, a outra segue tranquila pelo meio da multidão. Ainda que o sentimento de perder uma filha seja desesperador, o sentimento de perder duas filhas é um pouco revigorante. A loja para a qual você foi até o shopping não terá o produto que você esperava encontrar, então, é hora de pagar o estacionamento. Achar um quiosque de pagamento do estacionamento virou uma missão impossível. Cada shopping tem uma localização, todas difíceis de encontrar (geralmente embaixo de uma escada!). Mas voltemos às minhas… Filhas… cadê minhas Filhas?!!?!

Ah, estão lá. Você, então, gritará para suas filhas, que virão correndo e esbarrando nas pessoas, todas elas muito civilizadas e considerando você um péssimo pai. Você pagará o estacionamento com a mais nova no colo, a mais velha feliz com seus niddles, tentará entrar no carro com outro carro colado ao seu, ouvirá os choros de protesto da mais nova na cadeirinha, aguardará a cancela abrir, e estará novamente em contato com o ar puro, o sol, os pássaros. Você abrirá o vidro e entrará uma brisa suave. No rádio estará tocando um jazz gostoso, os motoristas darão passagem e o trânsito fluirá com calma, mas constância. Você olhará pelo retrovisor e verá duas lindas crianças felizes, olhando a paisagem. E, naquele momento, você será a pessoa mais feliz do mundo.

  • Ela diz

Pode ser o menino mais querido, a garotinha mais educada, uma adolescente vegana ou o filho do dono de uma lanchonete. Eles sempre brigam por uma porção fumegante (e às vezes reaproveitada) de palitos amarelos crocantes. Não se trata de escassez. Os pais, para falar bem a verdade, não deveriam oferecer jamais batatas fritas aos seus filhos, nem em casa, nem em restaurantes, muito menos na praia. É uma fritura bem pobre em nutrientes, diz a minha sogra, nutricionista. Mas, a gente chega no restaurante e não tem como escapar das fritas. Mesmo que tenha cardápio infantil, a alegria fica por conta do acompanhamento padrão.

Às vezes, em sua versão sorridente. Batata sorriso, um prato de nome redundante, uma vez que a batata, mesmo rústica, já deixa as crianças alegres. O prato chega. Se só há uma criança na mesa e você belisca um pouco, vai ouvir reclamação. Se, ao contrário, a mesa está repleta de menores, a algazarra começa em instantes. Nada é suficiente.

Ana Cardoso escreveu os livros a Mamãe é Rock 1 e 2 (Foto: reprodução)

Às vezes, tenho vontade de pedir muitas batatas. Uma porção tão grande que dispensasse outros pedidos. Será que comeriam ou seguiriam discutindo quem tem as maiores, as mais salgadas, as menos machucadas? Me esforço para observar esse momento com olhos de cientista. Que comportamentos se desvelam ali, perante a iguaria? Por que agem sempre desta forma? Que forças ocultas os impedem de apenas comer, sem cobiçar ou provocar o próximo? Por que com pipoca são tão mais solidários? É possível que, quando as férias terminarem, após conviver intensamente com primos, vizinhos, colegas e amigos das minhas filhas, eu já tenha alguma resposta. Talvez eu até peça um balde de batatas em breve para observar se, em casos de abundância, os ânimos se acalmam.

Talvez seja apenas um desperdício, dado que batata frita, depois de murcha, já era, não dá nem pra levar uma marmita pra comer mais tarde. Será este o segredo? Eles sabem que o que é bom dura pouco e por isso disputam imediatamente. Conviver intensamente com os filhos neste meses de verão faz a gente filosofar sobre cada coisa! Perdoem-me os leitores, a quantidade de abobrinhas, digo, de batatinhas, nesse texto.

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