Primeiro caso de covid-19 completa um ano no Brasil: o que sabemos até agora

Após um ano do registro do primeiro caso de covid-19 no país, muita coisa sobre a doença ainda é uma incógnita. Entenda o que mudou desde 2020 e quais foram os avanços durante este período desde a descoberta do vírus

Resumo da Notícia

  • Até o momento, o Brasil registrou 251.498 óbitos por coronavírus
  • No dia 26 de fevereiro de 2020, foi confirmado o primeiro caso de covid-19 no país
  • Até o momento, 2,99% dos brasileiros estão vacinados contra o vírus

Nesta sexta-feira, 26 de fevereiro, completa-se um ano da descoberta do primeiro caso de coronavírus no Brasil. Sem imaginar que tanta coisa poderia mudar em pouco tempo, alguns dias depois, em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciou a pandemia da doença no mundo.

-Publicidade-
A pandemia de coronavírus foi anunciada no mundo em 11 de março de 2020 (Foto: Getty Images)

Também em março, veio o primeiro caso de transmissão comunitária e, em seguida, o primeiro óbito por covid. Como uma alternativa de frear os efeitos da contaminação, foi adotado o isolamento social e como uma forma de carinho e proteção, deixamos de ver nossos amigos e familiares.

Ainda no ano passado, a corrida pela vacina contra covid-19 avançou e tornou-se real o início da imunização na população. Começando pelos profissionais da saúde, indígenas, quilombolas e idosos, atualmente temos 6,3 milhões de pessoas vacinadas, o que representa 2,99% da população.

-Publicidade-

A doença, em muitos aspectos, ainda chega a ser uma incógnita e mesmo em 2021, é preciso se cuidar, usar máscaras, manter o distanciamento e higienizar as mãos de maneira adequada. Com os números de casos registrados ainda em alta, vários estados do Brasil adotaram medidas de restrição de circulação, como o caso de São Paulo. Veja o que se sabe até agora do novo coronavírus e como você pode ajudar a sua família no combate contra a doença.

Vacinação contra covid no Brasil

Com início em janeiro de 2021, houveram muitas dúvidas sobre a quantidade de doses necessárias, se quem já teve a doença também precisa se vacinar, ou até mesmo como funcionara para pessoas que passaram por transplantes de órgãos. Para esclarecer o assunto, falamos com uma série de infectologistas.

Quem já teve Covid-19 também precisa se vacinar?

Sim. Apesar da infecção poder desenvolver uma certa proteção, a vacinação é indispensável, pois os anticorpos podem durar por um tempo menor. “A proteção gerada pela vacina é diferente e mais duradora, então as pessoas precisam ser imunizadas”, comenta o Dr. Lívio Dias, infectologista do Centro de Reprodução Humana Santa Joana.

O que pode acontecer se eu tomar apenas a primeira dose da vacina?

Segundo o Dr. Gerson Salvador, médico especialista em infectologia e saúde pública da Universidade de São Paulo (USP), pai de Laura, Lucas e Luís, isso pode prejudicar a produção de anticorpos. “Com uma dose só, a produção de anticorpos, o estímulo ao sistema imunológico, vai ser menor e não consegue garantir a eficácia das vacinas que estão divulgadas se a pessoa não tomar o esquema completo. Então, provavelmente a proteção será menor”.

Todo mundo vai ser imunizado? Crianças e gestantes também podem se vacinar?

Em um primeiro momento, não é prioridade que todos sejam vacinados, mas sim aqueles que correm um maior risco de morte. “No caso dos jovens, eles vão ser vacinados mais para frente, de acordo com a disponibilidade das vacinas. Pode ser que a doença reduza muito e a gente rediscuta em nem vaciná-los”, explica o médico infectologista Dr. João Prats, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, filho de João Antônio e Ana Lúcia

No caso das crianças e gestantes, o infectologista comenta que ambas as vacinas aprovadas no Brasil são seguras, mas que ainda não foram estudadas neste grupo. Portanto, ainda será necessário mais informações e pesquisas para identificar como seria a funcionalidade da imunização: “Neste primeiro momento, as grávidas, os menores de 18 anos e lactantes não serão imunizados, por não existirem dados suficientes da segurança das vacinas aprovadas emergencialmente no Brasil nesses grupos”, completa Melissa Palmieri.

Até o momento, 6,3 milhões de pessoas já foram vacinadas contra o novo coronavírus no Brasil (Foto: Getty Images)

Em um vídeo publicado pelo governo do estado de São Paulo, Rosana Richtmann, Infectologista do Instituto Emílio Ribas, explicou ainda que “a vacina é extremamente segura, mas em uma fase inicial, as gestantes não foram estudadas ainda. Então, por uma questão de cautela, nós estamos contraindicando a vacina em gestantes”.

Quem se vacinou ainda continua transmitindo o vírus?

Por enquanto, essa ainda é uma resposta que não temos. Até o momento, foram feitos estudos sobre a segurança e a eficácia, sem saber após a imunização o vírus continua sendo transmitido. “Pode ser que tenhamos respostas diferentes para vacinas diferentes”, explica Livio. Portanto, é superimportante continuar seguindo todas as medidas de prevenção até que haja o controle da pandemia.

Como funciona a imunização para quem passou por transplante de órgãos?

Tanto a CoronaVac, quanto a vacina de Oxford são vacinas seguras. “Nenhuma delas é capaz de causar doenças em pessoas imunosuprimidas. Alguns podem falar que pessoas muito imunossuprimidas não deveriam tomar a vacina de Oxford, mas isso é uma discussão corrente ainda porque o risco é muito baixo de doença, pois o vírus não replica, ele é símio, consegue replicar bem nas células humanas sem a pessoa ficar doente, sendo seguro”, defende João Prats.

Gerson Salvador completa que fazer o uso dos imunizantes está liberado, mas é importante ficar de olho na tecnologia da vacina. “Teria problema apenas se as vacinas fossem produzidas com o vírus vivo, mas nenhuma delas, até agora, que passou pela fase 3, possui essa tecnologia. Então, não tem problema a pessoa transplantada tomar a CoronaVac ou a de Oxford”.

Novas variantes do coronavírus

Descoberta em setembro de 2020, a primeira variante do coronavírus tem se espalhado rapidamente ao redor do mundo. Em dezembro, os primeiros casos foram identificados no Brasil, deixando as autoridades sanitárias em alerta. Também conhecida como cepa, a nova variante da Covid-19 significa que o vírus passou por modificações ao longo do ano, sofrendo alterações no seu material genético e mutações que geram variantes ou cepas do mesmo vírus. “A maioria das mutações no genoma do SARS-CoV-2 não tem impacto na função viral. Porém, certas variantes tem ganhado grande atenção por causa de sua rápida emergência dentro das populações e maior potencial para transmissão ou implicações clinicas”, explica a Dra. Elisa Miranda Aires, infectologista da DaVita Serviços Médicos. Até o momento, a variante mais conhecida é a linhagem B.1.1.7.

Segundo dados levantados pela Secretaria de Vigilância em Saúde, até 20 de fevereiro de 2021, foram identificados no Brasil 204 casos de variantes do vírus SARS-CoV-2. Ao todo são: 20 casos da variante encontrada no Reino Unido, com 11 casos em São Paulo, seis na Bahia, dois em Goiás e um no Rio de Janeiro. No caso da variente P1, encontrada em Manaus, são 184 casos identificados: 60 no Amazonas, 28 em São Paulo, 15 em Goiás, 12 na Paraíba, 11 no Pará, 11 na Bahia, 9 no Rio Grande do Sul, 7 em Roraima, 6 em Minas Gerais, 5 no Paraná, 5 em Sergipe, 4 no Rio de Janeiro, 4 em Santa Catarina, 3 no Ceará, 2 em Alagoas, 1 em Pernambuco e 1 no Piauí, com informa a Agência Brasil.

Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) associada ao covid-19

Podendo acontecer principalmente em crianças e adolescentes,  Síndrome Inflamatória Multissistêmica,  é uma inflamação no corpo se manifesta nos vasos sanguíneos (vasculites), causando extravasamento (vazamento) de líquidos, seu acúmulo nos pulmões, coração, rins e outros órgãos e diminuição da pressão arterial (quadro de choque), de acordo com a Dra. Renata Waksman, vice-presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), mãe da Muriel e Ricardo.

Recentemente, o Centers For Dissesse Control and Prevention (CDC) sugeriu que a doença seja chamada de síndrome inflamatória multissistêmica associada ao Covid-19 e, para que fosse possível comprovar o quadro, é necessário a confirmação à exposição do vírus nas últimas quatro semanas antes do início dos sintomas ou a infecção pelo SARS-CoV-2, ou a soroconversão (momento em que uma quantidade suficiente de anticorpos surge e aparece na sorologia).

Como ainda não se sabe muito sobre o assunto, é superimportante contatar um pediatra imediatamente sobre o assunto. Caso isso não seja possível, a família pode buscar pelo serviço de urgências pediátricas que tenham estrutura para garantir o diagnóstico precoce e tratamento adequado. A intervenção é imediata com internação na UTI, monitorização contínua, suporte hemodinâmico, ventilação mecânica, avaliações clínicas e laboratoriais e condutas conforme a evolução.

O tratamento tem sido realizado com medicamentos imunosupressores e anti-inflamatórios. “Mantenham a calma, considerem que o número de casos é muito pequeno e a maioria das crianças consegue, com o tratamento adequado, sobreviver sem sequelas”, comenta a Renata. Mas, sem dúvidas, a melhor forma de prevenir o problema é o isolamento social, recomendado pela Organização Mundial da Saúde contra o combate ao coronavírus, evitando assim que as formas graves da doença possam se manifestar.

Vale lembrar ainda que os sintomas desta doença podem ter relação com o sistema digestório, devido o contato ou transmissão fezes-como, trazendo alertas para a dor abdominal, gastrointestinais e inflamação cardíaca. Também podem aparecer sintomas respiratórios, quando a infecção é transmitida por gotículas de ar, como tosse e falta de ar, mas esses são mais raros. Podem ocorrer ainda inflamações na pele, sangue, coração, veias, febre alta e persistente, cefaleia, confusão mental, inchaço nas mãos e pés, erupções na pele até a evolução para um quadro de choque cardiogênico (quando o coração perde a capacidade de bombear sangue para os órgãos, causando outras complicações no pulmão e coração.

Mitos e verdades sobre o coronavírus em crianças

Nos últimos meses, os hospitais têm feito um alerta sobre o aumento de casos de coronavírus em São Paulo. Com as crianças, não foi diferente. De acordo com o Sabará Hospital Infantil, especializado no atendimento pediátrico, essa taxa foi ainda maior em novembro. “Em relação aos testes para SARS-CoV-2, entre os exames coletados durante outubro, tivemos 53 amostras positivas, enquanto em novembro foram 101, o que representa um aumento de 90%”, explicou o gerente médico e infectologista Dr. Francisco Ivanildo Oliveira, do Sabará Hospital Infantil. A partir desses dados, esclarecemos os principais mitos e verdades sobre como funciona a doença nas crianças.

Como alerta, Francisco também reforça que “como ainda não há previsão para vacinação infantil, a prevenção ainda é a melhor atitude. Evitar aglomerações, manter o distanciamento social, colocar máscara nas crianças acima de dois anos, lavar bem as mãos e usar álcool em gel continuam sendo a melhor forma de evitar contaminações”, destaca o médico.

Crianças e adultos podem ter os mesmos sintomas quando infectados pelo coronavírus?

Verdade. O especialista reforça que os sintomas mais comuns em todas as idades são: tosse, febre, dor no corpo, dor de garganta e coriza. “Nem todos os adultos sentem exatamente os mesmos sintomas e com crianças não é diferente. Nas crianças também podem aparecer irritabilidade, dificuldade de dormir, cansaço, perda do apetite e obstrução nasal. Caso a criança sinta um desses sintomas, procure um especialista”.

Bebês podem ser contaminados?

Verdade. ” O Sars-Cov-2 pode contaminar qualquer pessoa, de qualquer idade, inclusive bebês, no entanto, sua incidência é menor. Os casos confirmados em crianças até 9 anos, representam apenas 2,5% do total de casos notificados no estado de São Paulo”, comenta Francisco Ivanildo Oliveira.

Preciso lavar as roupas das crianças todas as vezes que saírem de casa?

Apesar do risco de transmissão pelas roupas ser considerado baixo, é recomendado que as roupas e calçados usados em atividades externas como, por exemplo, na escola ou em passeios, sejam retiradas e preferencialmente lavadas ao chegar em casa. “Uma opção é manter as roupas ou outros itens que não possam ser lavados em “quarentena“, isto é, em um local separado, sem uso por 48-72 horas”.

As crianças não devem tomar vacinas durante a pandemia?

Mito. É superimportante manter a caderneta de vacinação em dia! Com as taxas de imunização em queda, é essencial proteger as crianças de doenças graves como meningite, pneumonia, hepatite, paralisia infantil, sarampo, entre outras.

Reinfecção X reativação por covid-19

Apesar dos poucos casos confirmados, outros 2 mil suspeitos e um óbito, a reinfecção por coronavírus é algo que não pode sair do radar quando o assunto é a proteção da família. Por isso, é superimportante ficar de olho nos sintomas, principalmente se já houve algum caso da doença confirmada entre amigos ou parentes, e seguir todos os protocolos de segurança como, a lavagem das mãos, uso de álcool gel, máscara e distanciamento social.

Gerson Salvador explica que se uma pessoa volta a ter os mesmos sintomas e isola o vírus algumas semanas depois, com o mesmo material genético, pode ser uma reativação. “Então, pelo critério atual, é preciso demonstrar que são vírus diferentes para ser um caso de reinfecção”. Com a análise e critério atual prevalecente, faz com que tenhamos poucos casos confirmados de reinfecção, mas o infectologista comenta que com o passar do tempo, esse sistema pode ficar mais simples.

É possível se reinfectar pelo Sars-CoV-2, mas é necessário a realização do teste PCR para confirmar o caso (Foto: Getty Images)

Nos casos suspeitos de reinfecção, os sintomas são os mesmos de Covid-19, sendo eles: febre, tosse, desconforto respiratório, alteração no olfato, no sabor e dor no corpo. “Eles são sugestíveis de Covid-19 e uma pessoa que volte a manifestar esses sintomas, mesmo que já tenha tido a doença confirmada, é preciso ser investigada, pois pode se tratar de uma reinfecção. Para identificar, é preciso fazer o PCR para o Sars-CoV-2”, explica Gerson Salvador.

Tempo médio para reinfecção por covid

Até o momento, se sabe que a média entre o paciente ter sido contaminado e apresentar sintomas de reinfecção são de 80 dias. “Então, não é muito provável o paciente pegar novamente após ter se recuperado da doença em seguida”.

Os casos de reinfecção ainda são raros

No final de dezembro, o Gerson Salvador disse que tínhamos um pouco menos de 2 mil casos suspeitos mundo afora. “Claro que esse número deve estar subestimado, só que de qualquer maneira, frente aos milhões de pacientes que já tem a infecção confirmada, temos ai os poucos milhares que tem a infecção. Então, trata-se de um evento raro sim”.

Sobre a gravidade, ainda não existe um número considerável de casos para fazer essa avaliação, mas, “a Priore não parece ser mais, nem menos grave”, informou o infectologista. Até o momento, apenas um paciente veio à óbito por conta da reinfecção pelo novo coronavírus.