A tal da felicidade para uma mãe preta

A maternidade negra tem diversos desafios e cabe a todos os pais (independentemente da cor da pele) falar com as crianças sobre racismo

** Texto por Aline Barbosa, mãe solo de Laura, Vicente, Joaquim e Antônia, professora, atua como criadora de conteúdo digital no perfil @maecrespa

Os filhos aprendem com o exemplo (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Quando uma mulher preta se torna mãe, aprende a ser forte desde a gestação, pois é quando se iniciam os desafios. De acordo com as estatísticas, 60% da mortalidade materna são de mulheres pretas, pois o racismo institucionalizado tem a ideia que as mulheres pretas “aguentam mais a dor “ e assim sofrem diversas violências obstétricas.

Ao ver nosso filho nascer passa um filme na nossa cabeça, pois sabemos que vai chegar o momento de falar como somos vistos diante da sociedade pela cor da nossa pele. Na minha infância/adolescência sempre escutei que deveria fazer duas vezes mais para mostrar que sou capaz de fazer algo. Não tive bonecas negras e as princesas eram todas brancas. Alisei meu cabelo desde os 5 anos de idade pois o crespo era dito como “feio” e nunca tive uma mulher preta em ascensão como referência.

Hoje, sou mãe preta solo de quatro crianças, sendo duas meninas. Eu tento ser para elas a mulher que eu não tive por perto quando era criança. Diariamente alimento a autoestima delas (que não é uma construção fácil) exaltando o quanto elas são lindas do jeito que são. Mas o mais importante é mostrar os exemplos, pois a representatividade importa muito e vai além de ter apenas uma boneca negra. É necessário fazer com que elas se enxerguem em todos os lugares.

E esse é o maior propósito do meu instablog @maecrespa, pois quero que as mulheres pretas se sintam representadas por mim. Já que pouco se fala da realidade da maternidade de uma mãe preta nas mídias sociais. Ser mãe de uma criança preta é um desafio constante. Precisamos ser e mostrar aos nossos filhos que é necessário ser forte o tempo todo. Ser mãe de uma criança preta é viver com o medo constante, principalmente quando se inicia a fase escolar, pois é na escola onde muitas vezes sofrem pela primeira vez com o preconceito e cabe a nós pais ensiná-los a reagir da forma correta.

É preciso falar sobre racismo com as crianças (Foto: reprodução/Arquivo Pessoal)

Se todas as mães de crianças brancas tivessem mais consciência de ensinar aos seus filhos que a cor da sua pele não determina que é melhor que o outro, estaríamos caminhando para o nosso tão sonhado futuro livre de preconceito. Pois para uma mãe preta, a maior felicidade que existe é saber que seus filhos irão crescer em uma sociedade igualitária, onde jamais serão julgados ou discriminados pela cor da sua pele.

É deixar seus filhos usarem boné sem ter medo de serem confundidos com marginais. Que suas filhas possam usar o cabelo Black sem medo de não conseguir a tão desejada vaga de emprego. A felicidade de uma mãe preta é ver seus filhos tendo referências e representatividade em todas as áreas e cargos importantes que existem. Mas a maior felicidade de uma mãe preta é ver seus filhos crescerem sem virar estatística! É ver seus filhos crescendo sem medo de ser feliz!