Bebê gringo: as dificuldades (e vantagens) de criar um filho fora do Brasil

Cuidar de um ser tão pequeno em terra estrangeira não é mole, não.

Às vezes, o Leo, meu filho de 11 meses, acorda no meio da noite como se o despertador tivesse tocado, pronto para começar o dia. Sinto que ele entende que está todo mundo ainda no sono profundo. Fica quietinho no meu colo e poderia jurar que ele está dormindo não fossem os longos cílios dele na minha pele, batendo, batendo. Esta noite foi assim. Ele ficou quase duas (eternas) horas acordado. Olhos bem abertos, atentos. Até arriscou alguns pulinhos quando fomos para a minha cama. Tento resistir ao máximo levá-lo, mas é o meu último recurso. Minha cartada final. Nessas horas de desespero eu realizo o quanto os pequenos perrengues ganham um peso extra quando moramos fora do Brasil. Uma noite mal dormida, por exemplo, pode ser devastadora como um tsunami, que devagarzinho vai tomando conta de tudo. Ter bebê longe da família e ainda em meio a outra cultura, é, mesmo, para os fortes.

É o momento de agarrarmos o que temos e esperar que amanhã seja melhor (Foto: iStock)

Tempos atrás, no Brasil, quando a noite era péssima eu rezava para o sol nascer logo. Teria ajuda chegando logo cedinho. Entregava o bebê, organizava minha agenda de trabalho e voltava para o quarto para correr atrás e compensar um pouco meu cansaço. Hoje a corrida é para dormir o mais rápido possível enquanto ainda é noite. Assim que o sol nasce, a rotina da família é puxada e não há mais espaço, nem brecha no tempo. Dormir só se for em pé. E andando. Na hora em que o bebê dorme é a hora de produzir, de trabalhar. De não pirar.

Timing bom de morar fora é quando os filhos têm idade escolar. A partir dos quatro anos, a criança tem direito à educação gratuita e de boa qualidade aqui na Inglaterra. Antes disso, as mães inglesas tendem a abrir mão do trabalho integral e se dedicam à família. Desaceleram. Elas já sabem e estão preparadas para isso. Faz parte da cultura. A creche no Reino Unido é quase um assalto à mão armada e um privilégio para poucos. Claro que há exceções. Algumas mães até arriscam e voltam ao mercado de trabalho pensando, na verdade, na sanidade mental. Mas é receber o salário e praticamente realocar tudo para a escolinha ou cuidadora. Sem julgamentos.

As facilidades aqui são outras. Há papinhas prontas, orgânicas, ótimas que o Leo consegue inclusive comer sozinho direto do “saquinho”; há mamadeiras, bombas de leite e mil coisinhas de bebê que antes eu viajava para comprar e agora têm na farmácia da minha esquina; há sites de entrega de kits com todos os ingredientes cortados e com a receita para você cozinhar um jantar incrível em minutos; há produtos maravilhosos que facilitam a limpeza da casa; há robôs que aspiram a casa por um aplicativo no celular; há lojas baratas e que oferecem soluções de organização de ambientes e há secadoras que praticamente passam as nossas roupas! A lista é grande. Então foco na lista! Foco em tudo de positivo. Porque, olha…  Em dia de perrengue chique a gente quer mesmo é a nossa pátria. As coisas do jeito que estávamos acostumados.

Em dia de cansaço, o objetivo é sobreviver. Às vezes, confesso, que em meio à exaustão de carregar tudo nas costas, torço para o dia acabar. Que desperdício de dia, eu sei. Mas prometo para mim mesma que no dia bom, eu compenso. E se você aí também tem um bebê em terra estrangeira (ou não, convenhamos), sinta-se abraçada. Que perrengue, não é mesmo? Mas o tempo passa e tudo se ajeita. Se encaixa. Enquanto o dia está confuso e a gente está meio fora do fuso, foca aí também no que temos de bom. Aguenta firme comigo até a próxima noite, na torcida para que seja melhor, com mais horas de sono. E aí vamos aproveitar o dia enquanto o inverno não chega.