Saber construir relações saudáveis faz toda a diferença na nossa qualidade de vida

Lidar com o outro é sempre uma tarefa complexa pois o outro pensa e age diferente de nós mesmos

Vivemos a maior parte do tempo nos relacionando (Foto: iStock)

Nossa qualidade de vida tem muito a ver com a qualidade das nossas relações interpessoais. Afinal de contas, somos seres relacionais e vivemos a maior parte do tempo nas relações.

Às vezes nos preocupamos mais com nossa agenda de atividades – desde exercícios, alimentação, estudos, trabalhos, viagens, lazer e consumo -, buscando ter o máximo de  qualidade de vida, entretanto não nos damos conta que o que afeta enormemente nossa qualidade de vida é a qualidade dos nossos relacionamentos tanto na família, como no trabalho e sociedade.

Somos seres relacionais, vivemos o tempo todo em relações interpessoais, grupais, sociais, dentro e fora da família. Por isso, somos muito afetados pela qualidade destas relações.

E por que é tão difícil se relacionar?

O “habitat”  do ser humano é a relação. Se você se sente compreendido, apreciado, valorizado e incluído em qualquer uma das relações que vive, provavelmente sentirá como boa a sua qualidade de vida, mesmo que você não tenha agenda mais “top” do Instagram – (risos), modo de dizer! – ou que você não ganhe o prêmio Nobel da sua área, ou o maior bônus da empresa.  Estas conquistas não garantem qualidade de vida. Pelo contrário, se para conseguir esses feitos você precisa estressar as relações cobrando e exigindo mais do que cada um pode dar, você sentirá um desconforto.

A qualidade das nossas relações afeta na nossa qualidade de vida (Foto: iStock)

Pois não se trata somente das coisas que você faz, o que importa é como e com quem as faz, com quem se relaciona para realizá-las e como se sente nestas diversas relações. Afinal de contas, poucas coisas fazemos isoladamente de um contexto, sempre existem outros, terceiros envolvidos, direta ou indiretamente. Ninguém faz nada sozinho!

Seja na família, com seu cônjuge, filhos, pais, avós, tios, como também no seu trabalho, com seu chefe, equipe, fornecedor, cliente, parceiros, funcionários, e também no âmbito social de amizades e networking, são as relações que compõem todas as nossas ações e realizações. Por isso nos desgastamos e nos expomos tanto com as pessoas envolvidas nos diversos campos da nossa vida.

Quando não nos sentimos ouvidos, qualificados ou até  quando destratados, podemos ter comportamentos inesperados, agressivos e totalmente inusitados, fora do nosso controle emocional. Afinal de contas, ninguém é de ferro! E acabamos por nos sentir muito mal por ter agido fora do nosso estilo e desejo. Podemos sentir culpa e mal-estar por ter vivenciado certas situações limites, descarregando muita energia negativa nos demais.

Estamos o tempo todo no exercício relacional de se comunicar, ser entendido, entender os outros, incluir diferentes aspectos ou pontos de vista, negociando, combinando, discutindo, se colocando, cobrando e exigindo, e isso não é fácil! Dá trabalho, muito trabalho! Um trabalho que nem sempre dá o resultado esperado e por isso é tão difícil se relacionar!

As relações pessoais e profissionais demandam muito tempo para se tornarem úteis, saudáveis  e produtivas. É um processo de construção no tempo, não vem pronta! Não tem relações “Prêt-à-porter”.  As relações são frágeis e vulneráveis, precisam estar sempre sendo alimentadas e estimuladas.

Lidar com o outro é sempre uma tarefa complexa pois o outro pensa e age diferente de nós mesmos. O outro tem história diferente de vida, outras percepções que muitas vezes não nos agradam ou até nos incomodam e irritam profundamente.

Lidar com o outro é sempre uma tarefa complexa (Foto: iStock)

Nem sempre escolhemos as pessoas que precisamos nos relacionar, na verdade, apenas algumas podemos escolher, outras não e são relações até indesejáveis, mas que fazem parte da realidade familiar, profissional e social.

Como diz  o  grande filósofo  Jean-Paul Sartre: “O inferno são os outros”. Ou como Freud mostrando como somos “experts” em achar culpados para nossos problemas, terceirizando a culpa. Sempre o outro é culpado e eu inocente e bem intencionado, o outro que não me  entendeu. “Não fui eu que não soube me expressar”.

Enfim, todos nós somos assim, em menor ou maior intensidade dependendo do grau de análise crítica, reflexão e maturidade. Em geral, todos gostam de estar certos e com razão e dificilmente assumimos limites e dificuldades, como se isso fosse sinal de fraqueza! O que certamente não é, muito pelo contrário!

Durante este período de quarentena, com as relações mais sob ameaça, pelas rápidas mudanças de interação  que tínhamos antes do coronavírus, com o ambiente social mais tenso, inseguro e cheio de incertezas, as crises relacionais tendem a se intensificar, pois acabamos esperando que o outro nos “salve”, nos facilite a vida, mas, doce ilusão… As relações não são sempre assim. Ou melhor, nunca são assim, com raras exceções.

Saber construir relações saudáveis com as pessoas que escolhemos e as que não escolhemos, é uma das maiores competências que temos que adquirir ao longo da vida, sob o risco de  termos apenas relações frustradas, problemáticas, ineficientes e rompidas em nossas vidas.

Saber lidar com outras pessoas, próximas ou distantes, é necessário se quisermos realizar nossos sonhos, potencialidades e propósito.

Precisamos uns  dos outros, e os outros também precisam de nós. Então só nos resta saber lidar uns com os outros. É um processo que vale a pena investir para realmente ter qualidade nas diversas relações.

Relações saudáveis e de qualidade, não significa ter harmonia total, isto não existe. Saber lidar com cada um que é diferente de você é buscar um espaço relacional viável, possível e não deixar virar um  campo de batalha de sofrimento ou de perda de tempo.

Criar relações saudáveis é como criar um “habitat” favorável para o melhor de cada um ser exaltado, e não o pior – que é o que acontece com frequência.

As relações desencadeiam o nosso “melhor lado” ou o nosso “pior lado” pois cada relação é única, tal como cada ser humano é único. Não temos cópia de nós mesmos. Somos originais, tais como nossas relações.

Sair do paradigma da competição e ir para o de colaboração já vai possibilitar mais saúde relacional. Sair do narcisismo, que é buscar pessoas iguais a você para se relacionar, e dar espaço para as diferentes vozes e subjetividades, amplia e enriquece suas possibilidades relacionais.

Para formar uma boa equipe de trabalho, um time, por exemplo, precisamos de pessoas e talentos diferentes dos nossos, pessoas que sejam complementares. E isso, por si só gera dificuldades relacionais, pois cada um vai ter um ângulo da realidade e sua forma de agir diferente da nossa própria maneira. Saber orquestrar essas diferenças é o que faz o sucesso ou fracasso da equipe. E isso se chama inteligência relacional – tema que vou abordar em breve nesta coluna.

Enfim, são diversas competências importantes para construir relações saudáveis. Mas o mais importante é se dar conta de quais são suas maiores dificuldades em cada uma das suas diversas relações, e quais estratégias estão disponíveis para se lidar com situações difíceis e embaraçosas relacionalmente.

Vamos então aprender a nos relacionar? Ninguém nasce sabendo, vamos evoluindo com o tempo e a consciência. Precisamos aprender isso, tal como fazemos com outra habilidade qualquer.

A sabedoria consiste em saber o que posso fazer, distinguir que depende de mim, e que seria mais útil para tal relação avançar. Em geral, quando mudamos algo numa relação, vamos ter uma resposta diferente da outra parte e vale a pena descobrir formas mais eficazes na relação, ao invés de ficar esperando que o outro mude para melhorar, pois isso pode nunca acontecer!

Veja o que você pode fazer, faça e refaça até encontrar uma equação saudável para ambos os envolvidos. Não desista após a primeira tentativa.

Sem dúvidas sua qualidade de vida será outra a partir de relações mais satisfatórias e significativas.