Mais Kairós e menos Chronos

Hoje nosso tempo é contado em segundos, não mais em horas. Precisamos desacelerar um pouco!

(Foto: Getty Images)

Já observaram como nas estações de metrô todos estão correndo, como se estar atrasado fosse o estado permanente de todos? E quando enviamos uma mensagem de WhatsApp e quem a recebe sinaliza leitura (fica azulzinha) mas não responde em poucos minutos? E quando o delivery do Rappi demora mais do que 30/40 minutos para uma entrega? Hoje parece que o relógio anda mais rápido e nossa mente tem pressa. Aceleramos a velocidade do áudio book para ter uma leitura mais “dinâmica”, colocamos potência máxima no microondas para apressar o tempo de cozimento do arroz, ficamos impacientes se o tempo para abrir um site ultrapassa 10 segundos. Sim, hoje nosso tempo é contado em segundos, não mais em horas. Quem sabe em minutos em alguns casos de maior tolerância. O mundo digital apressou o mundo e e fomos engolidos por ele. E bem rápido!

Se tal ritmo é o que dita nossa realidade hoje, ele também dita nossa relação com nossos filhos. Sem percebermos, podemos estar acelerando nossas demandas em relação a eles, nossas expectativas, nosso tempo juntos. Será que tem que ser assim mesmo? Será que a pressa é o que marcará nossa relação com nossos filhos? Será que é apenas o olhar no vir-a-ser que deve guiar o presente? Olhar para frente sempre ou viver o agora, sem pressa?

Aproveito essa enxurrada de dúvidas para falar um pouco sobre algo que está em nós e que o digital ainda não conseguiu mudar. São nossos ciclos naturais, que operam em nossas vidas sem nem nos darmos conta deles. Ciclos alimentam nossa rotina e nossas vidas. Onde há ciclos há vida. Os ciclos nos ajudam em nossa organização, a marcar o tempo, a superar fases, a conquistar outras. São fechamento e recomeço ao mesmo tempo. Na história antes de Cristo, já surgiam os primeiros relatos de ciclos biológicos. Hipócrates, o médico grego considerado o pai da Medicina, associava as doenças às estações do ano, mostrando como ciclos influenciam nossa forma de responder corporeamente a eventos externos. Da mesma forma, o também grego Archilocus, poeta, afirmou que os ritmos governam os homens, isso há 2.500 anos! Parece que a frase é manchete do jornal de hoje. Somos governados pelo ritmo ditado pelos segundos, mesmo que usar relógio esteja em desuso. Já internalizamos tal dinâmica e dispensamos o equipamento. A pressa independe do marcador do tempo.

(Foto: Getty Images)

Calma lá! Querendo ou não, somos regulados por 3 ciclos que organizam nossa vida de múltiplas formas. Temos os ciclos infradianos, que são espaços de tempos maiores que um dia, como por exemplo, o ciclo da ovulação, o ciclo da lua ou das marés; os ciclos circadianos que são aqueles que completam um giro uma vez ao dia e tendem a se sincronizar com a luminosidade, dia e noite, como por exemplo sono e vigília; e o ciclo ultradiano, aqueles mais curtos que ciclam várias vezes ao dia, como nossos batimentos cardíacos. Regidos pelo sistema nervoso autônomo, nosso corpo vive em tempos próprios, sem nosso controle direto. Não há como apressar, de forma natural, nossos ciclos. A vida pede tempo.

Será que estamos respeitando nossos ciclos? Quase certeza que a resposta será não. A consequência é um estado constante de estresse, como se estivéssemos forçando um ritmo não desejado por nossa natureza. O ritmo acelerado eleva nossos hormônios, levando-nos à fadiga, estresse e desgaste. Ficam recorrentes as falhas de desempenho, de memórias, dias em que estamos mais irritados. O corpo fala com o cansaço, a imunidade baixa, o coração palpita, com ansiedade e depressão.

Mesmo que nossas rotinas demandem pressa, será que nossos papeis de pai e mãe não pedem calma? Como uma vez ouvi o ex-ministro Meirelles dizer, “Vamos devagar porque eu tenho pressa”. A nobreza do papel que temos como pais não deveria entrar na paranóia do tempo. Parar, estar, ficar, esperar, deveriam ser verbos mais presentes do que correr, acelerar, adiantar. Ou, se voltarmos à Mitologia Grega, que tanto nos ensina, talvez seja a hora de voltarmos mais ao tempo de Kairós do que ao tempo de Chronos. Kairós era filho de Cronos, deus do tempo e das estações, e que, ao contrário de seu pai, expressava uma ideia considerada metafórica do tempo, não-linear. Kairós fala do momento certo, oportuno ou único, que pode estar presente dentro do espaço de um tempo físico, determinado por Chronos. Em suma, Kairós seria o período ideal para a realização de algo. Nem antes nem depois. Nem mais lento nem mais apressado, ideal apenas.

Talvez os tempos atuais tenham dado muito valor a Chronos, o tempo do relógio, e pouco espaço para Kairós nos guiar. Aliás, no plano religioso, Kairós é o tempo de Deus, algo que não pode ser medido, pois, de acordo com uma das passagens da Bíblia Cristã: “… Um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia” (2 Pedro 3:8). Que possamos saber viver os momentos únicos de nossas vidas, sem pressa. Nossos filhos merecem isso, nós também.

Mais Kairós e menos Chronos.

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