Transplante de fezes: entenda como essa alternativa funciona para a saúde intestinal do seu filho

Existem aquelas bactérias chatas e capazes de atormentar o intestino do seu filho. Mas você sabia que existem aquelas “do bem”, que podem salvar o sistema imunológico da criança? Verdadeiras heroínas

Resumo da Notícia

  • A Clostridium Dicile, é capaz de causar uma infecção gastrointestinal potencialmente fatal, que subverte o equilíbrio do microbioma.
  • É possível se infectar com a bactéria C. diff em qualquer lugar. Se seu filho “pegar” essa bactéria
  • Transplantar fezes de uma pessoa saudável para o trato digestivo de uma pessoa doente pode parecer absurdo, mas funciona.
A hora ideal para estabelecer um microbioma saudável é durante a infância (Foto: Shutterstock)

Christina Fuhrman sabia que algo estava errado com sua filha de 1 ano e 10 meses, a Pearl. A criança estava pálida, cansada e com diarreia. “Ela fazia cocô dez, onze, doze vezes por dia”, diz. Christina já havia levado a filha ao pediatra e feito exames, que não indicaram nada de anormal. Mas quando Pearl pediu para ser carregada – não aguentava o próprio peso do corpo, a mãe a levou na hora ao pronto-socorro. Então, a bebê foi diagnosticada com uma bactéria chamada Clostridium Dicile, capaz de causar uma infecção gastrointestinal potencialmente fatal, que subverte o equilíbrio do microbioma.
“Algumas pessoas dizem que o microbioma é como um segundo cérebro – um órgão sensorial que reúne informações do corpo e alimenta informações para o sistema imunológico”, diz Tomas McDade, antropólogo biológico e professor da Universidade Northwestern, nos Estado Unidos.
Vários fatores influenciam o sistema imunológico do seu bebê, como a forma que ele nasceu (normal ou cesárea), sua primeira alimentação (seios ou mamadeira), onde vocês moram e os níveis de dieta e stress dele. É possível se infectar com a bactéria C. diff em qualquer lugar. Se seu filho “pegar” essa bactéria, os germes bons do seu intestino passarão a “competir” com a C. diff. E o pior: muitos antibióticos receitados para matar a C. diff são capazes de eliminar muitas dessas boas bactérias, fazendo com que a C. diff ganhe cada vez mais território no estômago do seu filho. Quando isso acontece, a infecção pode ser difícil de ser eliminada permanentemente, porque, mesmo após o tratamento, o microbioma de uma criança permanece suscetível à reinfecção.
Crianças na situação de Pearl passam um ano ou mais indo e voltando do hospital, tomando, alternando e interrompendo antibióticos diferentes a fim de tentar a cura. Mas a história de Pearl teve uma reviravolta: os médicos da Mayo Clinic, em Rochester, Minessota, decidiram abrir mão do medicamento e tentar um transplante fecal, um tratamento disponível em apenas alguns centros médicos e em casos raros. Eles deram a Pearl mais uma rodada de antibióticos e então coletaram uma amostra de fezes de seu pai, misturaram com água salina estéril para criar uma solução rica em bactérias e colocaram o líquido diretamente no trato digestivo da bebê. Em questão de minutos, seu intestino foi recolonizado com bactérias saudáveis. No Brasil, o pediatra Claudio Len – pai de Fernando, Beatriz e Silvia, explica que “não é um tratamento do dia a dia, é usado em casos excepcionais, para pacientes com infecções graves, que não respondem bem aos antibióticos. Ainda não é um tratamento padronizado completamente”.

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Algumas pessoas dizem que o microbioma é como um segundo cérebro – um órgão sensorial que reúne informações do corpo e alimenta informações para o sistema imunológico (Foto: iStock)

O poder do cocô

Transplantar fezes de uma pessoa saudável para o trato digestivo de uma pessoa doente pode parecer absurdo, mas funciona. “Minha pesquisa descobriu que cerca de 90 de 100 pacientes pediátricos melhoraram, sendo que alguns ficaram doentes por mais de um ano antes desse tratamento”, diz Mark Bartlett, gastroenterologista pediátrico da Mayo Clinic e um dos médicos de Pearl. A C. diff se multiplica graças à ajuda de alguns ácidos biliares dos intestinos. Só que algumas bactérias boas do intestino também comem ácidos biliares, portanto, quando há um número suficiente das boas, elas monopolizam o suprimento de comida e mandam o C. diff embora. O transplante fecal da Pearl trouxe as boas bactérias para o intestino, de modo que os esporos de C. diff deixados não pudessem se multiplicar e sobreviver. Sucessos como o dela levaram médicos e cientistas a perguntar: que outras doenças e problemas de saúde uma reformulação do microbioma poderia resolver?

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Curando o intestino – e além

Aproximadamente de 100 a 200 de cada 100.000 crianças nos Estados Unidos têm um distúrbio inflamatório crônico do trato gastrointestinal, como a doença de Crohn ou a colite ulcerativa – doenças que podem afetar a saúde, o crescimento e a qualidade de vida dos ossos. 6% dos estudantes do ensino médio têm evacuações irritáveis. As causas desses problemas gastrointestinais – de bactérias à genética – não poderiam ser mais diferentes. No entanto, todas as três doenças têm algo em comum: alterar o microbioma de um paciente pode melhorar drasticamente os sintomas. Em um estudo no Seattle Children’s Hospital, nos Estados Unidos, pacientes pediátricos com doença de Crohn ativa e colite ulcerativa  zeram uma dieta especial (sem grãos, laticínios, açúcar ou alimentos processados) por 12 semanas com o objetivo de alimentar as boas bactérias no intestino e matar o mal.
No final, oito dos dez pacientes estavam em remissão. No Hospital Infantil do Colorado (EUA), os médicos trataram a doença in amatória intestinal com dieta. Após três meses, cerca de 80% dos pacientes pediátricos estão em remissão. Brett Finlay, microbiologista da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, descobriu que quatro cepas de bactérias intestinais eram incomumente baixas em crianças canadenses com risco aumentado de asma problemática. Quando os pesquisadores introduziram essas bactérias nos intestinos de camundongos e, em seguida, induziram asma, os camundongos não desenvolveram inflamação nas vias aéreas, mostrando que as bactérias podem ter poder de prevenção. Até o momento, o transplante fecal de c. Diff é uma das áreas mais estudadas e bem-sucedidas no tratamento de microbiomas. Semanas após o transplante fecal de Pearl, seus pais enviaram à equipe médica um vídeo de agradecimento. Nele, o rosto da garota de 2 anos está corado e as olheiras de sua mãe sumiram. “Pensar que algumas crianças batalham contra C. diff e se curaram?!”, diz Fuhrman. “Eu não poderia ser mais grata”.

Como ter um intestino saudável

A hora ideal para estabelecer um microbioma saudável é durante a infância. Quanto mais bactérias do bem seu filho tiver agora, maior a probabilidade de elas competirem com as bactérias ruins que ele encontrará no futuro. Gail Cresci, doutor da Cleveland Clinic (EUA), compartilha quatro maneiras de manter o intestino do seu filho bem alimentado.

➜ Leia os rótulos dos laticínios
Certifique-se de que o iogurte que seu filho toma tenha variedades de probióticos, os organismos vivos criados durante o processo de fermentação que podem residir no trato gastrointestinal e fortalecer o sistema imunológico do seu filho.

➜ Escolha alimentos frescos.
Alimentos fermentados também contêm probióticos. No entanto, as variedades estáveis em prateleira muitas vezes não são produzidas através de fermentação ou são pasteurizadas, o que mata as bactérias saudáveis. Opte pelos alimentos refrigerados.

➜ Troque cereais por aveia
As bactérias benéficas no intestino grosso do seu filho crescem com a fibra fermentável (prebiótica), que pode ser encontrada na aveia e na cevada não processadas.

➜ Tome muita água
Quando consumimos alimentos ricos em fibras naturais, nós devemos aumentar a quantidade de água que ingerimos para que nosso intestino não seja bloqueado. O recomendado é beber no mínimo 1,5 litro de água por dia, preferencialmente fora das refeições.

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