Família

Relato de mãe: “Perdi meu marido três dias após meu primeiro filho nascer”

Ela conseguiu superar as dificuldades se apoiando no amor pelo seu bebê

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

viuva2

(Foto: Divulgação)

Quando você perde alguém pode escolher parar no tempo ou lutar para tentar seguir com a vida. Jessica Ayers, escritora do site Popsugar, contou sobre sua experiência de perder o marido três dias após o nascimento do primeiro filho. Como amor de mãe é a maior força que existe, ela conseguiu superar a situação se apoiando no amor por seu bebê. Hoje, ela tem uma fundação para ajudar jovens viúvas a passar por dificuldades, como ela passou.

Confira agora seu relato sobre seu casamento e maternidade:

“Ali estava eu, com um bebê de três dias de vida nos braços, tremendo em meio ao caos que estava a minha casa. Abafados pelas portas do quarto, haviam sirenes, vozes e gritos que irão assombrar meus sonhos para sempre. Eu estava petrificada e em choque, e só o que meus olhos conseguiam ver era o rosto sem vida do único homem que amei a vida inteira, com os lábios brancos e o corpo estirado em uma posição incomum. ‘Não consegui sentir o pulso dele, mas ele tem que estar vivo’, eu dizia para mim. Um policial entrou devagar no quarto e caminhou até a minha cama. Com o canto dos olhos, eu conseguia ver os braços esticados da minha família tentando alcançar o meu filho. Quando as palavras ‘ele está morto’ chegaram aos meus ouvidos, tudo ficou escuro.

Os jornais descreveram como uma bala perdida, mas nós sabíamos a verdade. A bala que matou Justin foi contra qualquer lógica e, estatisticamente, tinha a probabilidade de um em um milhão. Bêbado, meu vizinho de quintal atirou com sua pistola semiautomática 9mm. A bala conseguiu atravessar a porta de tela, passou por dezenas de árvores a mais de 60 metros de casa. Ela passou pela nossa porta de vidro e cortinas e continuou a atravessar nossa sala até finalmente parar quando atingiu Justin na cabeça no momento exato em que ele levantou do sofá.

Já faz dois anos desde o trágico dia, e aos 33 anos de idade eu me vejo como uma garota muito mais triste, mas também mais sábia. Passar por algo tão horrível e que altera a sua vida de uma maneira que não muda só como você vê o mundo – muda você também. Luto é uma coisa muito pessoal, e embora eu não me ache uma especialista no assunto, eu sei em primeira mão como é viver com isso. Costumo comparar o luto com uma cicatriz, mais especificamente uma cicatriz interna no seu coração e sua mente que te segue aonde quer que você vá. Uma nuvem escura que paira por tudo que é bom e bonito pelo resto da sua vida. Para entender realmente a gravidade da situação, você precisa entender a história como um todo, não apenas o final dela. E sendo assim, vamos para 19 anos atrás.

Eu mal era uma adolescente, tinha 14 anos de idade e eu estava na oitava série quando eu vi pela primeira e me apaixonei por Justin Ayers. Ele conseguia tocar guitarra como Jimi Hendirix e fazer uma piada como Jerry Seinfeld. Ele era inteligente, talentoso, adorável, engraçado, um garoto apaixonante e eu percebi isso tudo. Quando eu lembro de nossa história de amor, uma letra de música específica aparece na minha cabeça: ‘toda noite eu pergunto aos céus, por que eu tenho que ser uma adolescente apaixonada?’, e eu soluçava ‘por que não podemos nos casar hoje?’. Meus amigos e minha família (a não ser a minha mãe) poderiam rir da ideia, nos fazendo parecer crianças que cresceram muito rápido e que tudo não passava de hormônios. Mas eu nunca duvidei. Em 2003 (um ano depois de me formar na escola), nós finalmente atamos nosso laço.

Nos próximos 10 anos, Justin e eu estabelecemos nossas próprias regras em nossas vidas. Nós tinhamos várias metas que queríamos perseguir, então decidimos esperara para começar uma família, pois sabíamos que precisávamos de tempo para amadurecer. Nós formamos inúmeras bandas, viajamos por lazer e a trabalho, e escrevemos e gravamos um disco juntos. Aquilo estava definitivamente fora das normas, mas para nós essas eram as regras e estávamos apreciando aquilo. Até que, em uma manhã, eu acordei e me senti diferente. Eu queria ter um bebê! E Justin também queria. Estávamos casados por 10 anos, e nós dois sabíamos que já estavámos prontos para virar pais. Em setembro de 2013, eu fiquei grávida de nosso filho, Jax.

Em 14 de junho de 2014, eu lembro de estar olhando para meu bebê e pensando ‘finalmente, eu entendo!’. Seu cabelo era grosso e sedoso, sua boca era vermelha e seus olhos eram espertos. Além da sombra de uma dúvida, trazer uma criança para o mundo deve ser um dos sentimentos mais incríveis que uma mulher pode experienciar. Algumas pequenas complicações na hora do parto custam um dia a mais no hospital, mas na terceira tarde nós fomos liberados e fomos para casa para ser uma família.

Nós nos referimos ao dia seguinte como ‘o dia em que a música morreu’. Eu tinha um bebê de três dias de vida e, agora, um marido morto. Eu era a mais nova mãe e também a mais nova viúva, aos 31 anos. Eu nunca tive a chance de me despedir do Justin ou dizer a ele o quanto eu o amei. Eu prefiro pensar que ele já sabia de tudo isso.

Nós cremamos Justin em um sábado, exatamente uma semana após Jax ter nascido. No dia seguinte ao seu funeral, as coroas de flores já estavam se dispersando e meu sistema de suporte estava diminuindo para um grupo muito menor. Parecia imcompreensível tentar retratar o nível de tristeza no qual eu mergulhei. Uma tristeza tão assustadora que não me era permitido ficar sozinha até mesmo na hora do banho.

‘Jess, você está bem aí?’, minha amiga Casey gritou enquanto ela batia na porta do banheiro, ‘Jax está chorando e precisa comer. Nós precisamos quebrar a porta?’. O tempo parecia estar congelado enquanto eu percebia que já havia se passado duas horas desde que eu entrei no banheiro, garantindo a minha primeira chance de estar sozinha desde a perda de Justin. Eu considerava aquela a única oportunidade de aproveitar a minha própria desgraça. A luz do quarto brilhou sob a porta enquanto eu me derramava em um mar de lágrimas, encarando para todos os pés que andavam para frente e para trás. Com o frio do azulejo no meu rosto como meu único consolo, eu decidi naquele momento que eu estava pronta para desistir de tudo. Eu queria morrer.

Eu conseguia ouvir várias vozes no corredor, todas me pedindo para abrir a porta. Mas a distância eu conseguia ouvir uma voz fraca ressonando no meu coração. Era Jax, faminto, e eu sabia que eu era sua fonte de comida. ‘Nós estamos mandando alguém para o mercado para preparar alguma fórmula para ele’, minha mãe me disse. Aquele definitivamente foi o momento em que eu tive que decidir entre vida ou morte.  Eu percebi que mesmo que a vida que eu lutei tanto para ter havia sumido, eu poderia tentar e começar uma nova. Meu filho precisava de mim para sobreviver e eu precisava dele também. Eu precisei de 10 minutos para conseguir ficar de pé, mas quando eu consegui, me senti um pouco mais esperançosa. A vida é feita de várias escolhas, e essa escolha de permanecer viva começou com a decisão de levantar do chão do banheiro e ir alimentar meu bebê.

No ano seguinte, eu me sentia como um camaleão. Eu virei tantas versões diferentes de mim que eu não conseguia saber quem eu era mais. Eu era esposa ou viúva de Justin? Eu era uma mãe e dona de casa que costumava ser música ou eu cantaria outra vez? Eu teria outra oportunidade de ter outro filho? Sempre quis ter três… As infinitas perguntas me consumiam de dentro para fora. Por aproximadamente 10 meses, eu desapareci de todas as cenas e redes sociais, círculos de amizades que não incluíam poucas e específicas pessoas. Eu estava me escondendo do mundo, até que aconteceu novamente. Eu olhei para meu filho de 10 meses e senti vergonha. Aquele bebê faminto, chorando pelo leite de sua mãe, agora começava a falar, andar e pensar. Olhando para meu filho, eu mais uma vez decidi que era hora de fazer outra escolha entre vida e morte.

 A montanha russa de emoções que eu sinto durante um show não tem fim. Porém, eu escolho encarar elas todas as noites porque, no final, o bom vence o que é ruim. Eu mantenho a ideia de que a felicidade que eu experimento todos os dias é por minha escolha própria. Todos os dias eu acordo como todo mundo e me deparo com algumas escolhas. Alguns dias eu odeio a vida e escolho ficar triste, com raiva, magoada, com medo, ressentida e solitária. Outros dias eu me sinto abençoada e escolho ser feliz e otimista. Cada dia é uma nova decisão e cada decisão traz um novo resultado. Eu só posso esperar estar fazendo as escolhas certas para meu futuro e o futuro de Jax.

Quando eu fecho meus olhos durante a noite, eu gosto de me falar três coisas: eu serei eternamente grata por você, mãe! Eu adorarei você para sempre, Justin! E eu sempre amarei você, Jax! Algumas das maiores citações de nossas vidas chegam até nós através de canções. Então, eu deixo para vocês algumas palavras de Aerosmith: “a vida é uma jornada, não um destino. Eu não posso te dizer o que o amanhã pode trazer.”

Leia também

Relato de mãe: “Uma nova gravidez não apagou a dor e a memória do filho que perdemos”

Relato de mãe: “Eu não tinha ideia de que me sentiria assim no pós-parto”

Relato de mãe: “O coração de uma mãe foi feito para quebrar e curar várias vezes. Não desista”

 

Você gostou desse conteúdo?

Sim Não