Gravidez

Tudo sobre parto normal: dói muito? Como é a recuperação? Quais os benefícios?

A mulher participa ativamente do nascimento do bebê, o parto ocorre por via transvaginal e sem necessidade de cirurgia

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

O parto normal é o mais indicado pela Organização Mundial da Saúde (Foto: Getty Images)

Tecnicamente falando, o parto é a expulsão do feto do útero. Porém, o significado desse ato é muito maior: é o momento mais importante do nosso ciclo, a continuação da vida que começou no útero e quando a criança começa a ter seus direitos. Mas o assunto do parto pode vir rodeado de polêmica, medo e dúvidas. Mães costumam criticar a maneira como outras mães agem — seja por amamentar ou não, pela forma de educar, pelo que dão para comer, pela rotina (ou falta dela) e até pela escolha do parto. A Pais&Filhos apoia e defende o parto normal, no qual se respeita o tempo certo da criança nascer e a natureza como forma de dar à luz. Mas a maneira de vir ao mundo é um meio – e não deve ser alvo de julgamentos, ok?

O que configura o parto normal?

No parto normal, a mulher participa ativamente do nascimento do bebê, o parto ocorre por via transvaginal e sem necessidade de cirurgia. Pode-se fazer uso de anestesia para diminuir a dor causada pelas contrações, os tipos mais usados são a raquidiana e peridural. A raquidiana tem ação rápida e pode ser usada no final do trabalho de parto e a peridural pode ser aplicada quando o colo do útero já apresenta alguma dilatação. A recuperação do parto normal é bem mais rápida que a recuperação de uma cesariana. Além disso, complicações como hematomas, dores pélvicas e infecções são menos prováveis neste tipo de procedimento.

É a melhor opção?

O parto normal é o mais indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por ser o mecanismo fisiológico e por ser a escolha do próprio bebê de vir ao mundo – sendo um “sinal” de que ele está preparado para nascer. Cerca de 80% das mulheres chegam, ao final da gravidez, com condições físicas para tentar o parto vaginal. Mas é a grávida quem decide qual caminho irá seguir depois de ter contato com informações e ter suas dúvidas respondidas. O que vai pesar são as expectativas, os sonhos e, por fim, a escolha – se for possível realizá-la com segurança depois da avaliação do médico.

A ginecologista e obstetra do Hospital das Clínicas Fernanda Cristina Ferreira Mikami, mãe de Giuliana, lembra que as consultas durante a gravidez permitem não só a vigilância de doenças e complicações que podem se desenvolver ao longo da gestação, como também servem para que o obstetra conheça a paciente, seus medos, dificuldades e limitações, e lhe permita solucionar diversas dúvidas, principalmente as relacionadas ao parto. “Mulheres têm dúvidas sobre os tipos de parto, qual o local mais adequado para ser realizado, se vai sentir dor, se a recuperação é rápida, como é o preparo para a amamentação, quando poderão voltar a realizar as atividades habituais ou a voltar a ter vida sexual ativa. O ideal é solucionar as angústias ao longo da gestação, nas consultas. E esclarecer que parto ‘anormal’ é aquele que não é seguro para mãe e bebê”, explica.

A frustração não deve ser parte de um momento tão bonito, mas ela pode acontecer caso você não esteja preparada para acontecimentos que levam a ter de seguir pelo “plano B”. Por isso, evite surpresas: conversar com seu médico de confiança e combinar quais serão as “cartas na manga”, pode preparar melhor o psicológico para um parto diferente do planejado, mas que, com certeza, não será menos emocionante e bonito.

“Incentivo todas durante o pré-natal para que se preparem física e psicologicamente para parir naturalmente, mas sem esse peso de que o parto normal é a coisa mais importante de tudo”, explica Igor Padovesi, ginecologista e obstetra, pai de Beatriz e Guilherme e colunista do nosso canal no YouTube, que considera existir um exagero na discussão sobre o parto natural, que coloca uma grande pressão sobre a mulher. “Há uma ideia de que a mulher precisa, necessariamente, ter a experiência do parto normal, como se aquelas que escolhem outros partos fossem inferiores, menos femininas. Com isso, algumas mães que, pelos mais variados motivos, acabam não conseguindo ou optando por não parir naturalmente carregam um grande peso”, defende. “Deprimidas, algumas fazem terapia e tomam remédios por frustração. É como se quisessem ter um parto mais do que ter um bebê. Parto normal é ótimo, devemos incentivá-lo. Mas quando não der certo, quando a mãe ou o bebê correm risco ou simplesmente quando for a opção da mulher, optamos pela cesárea”, finaliza Igor.

Quais as vantagens do parto normal?

Algumas vantagens do parto normal são a rápida recuperação da mãe, o que lhe proporciona segurança e tranquilidade, a facilidade para o aleitamento e o retorno mais rápido às atividades habituais. Além disso, o parto vaginal costuma sangrar menos e apresentar um menor risco de infecção pós-parto, principal causa de mortalidade materna, que é 2,5% maior em partos cirúrgicos. Do ponto de vista da mãe, o parto normal pode apresentar algumas dificuldades, como a dor das contrações (o que atualmente pode ser controlado pela analgesia), a dor perineal sentida por algumas mulheres (períneo é a região que fica entre a parte de baixo da vulva e o ânus), a possibilidade de lesões e distensão excessiva do assoalho pélvico (o que pode levar a casos de incontinência urinária), a duração variável do trabalho de parto (que para algumas mulheres pode ser cansativo) e a incerteza da data de ocorrência do parto (pois depende do início espontâneo do trabalho).

Quando chega o momento de ir ao hospital?

O momento de ir para o hospital é quando a mulher entra em trabalho de parto, ou seja, quando começa a sentir contrações rítmicas em intervalos de mais ou menos cinco minutos, ou quando ocorre vazamento de líquido, que é sinal da ruptura da bolsa. É hora de ligar pro seu médico e ir para o hospital. Logo que dá entrada no pronto-socorro, você será encaminhada para uma enfermeira-obstetriz, que faz os primeiros exames. Ela escuta os batimentos cardíacos do bebê, mede as contrações e checa a dilatação uterina. A média de dilatação é de um centímetro a cada hora. Se o obstetra que vai fazer o parto já estiver lá, é ele mesmo quem faz esses exames e já acompanha sua paciente. Depois, fará um exame para checar os sinais vitais do bebê, chamado cardiotocografia, que monitoriza as contrações e os batimentos fetais por 20 minutos. Esse exame é feito também na cesariana marcada, pois as contrações servem para ver como está a movimentação e avaliar o “comportamento” do bebê.

A mulher é então encaminhada para a sala de pré-parto, onde fica sendo monitorada. Esse período pode durar até 24 horas, depende da mulher. A cada duas horas, se mede a dilatação, e conforme ela vai evoluindo, esse intervalo vai diminuindo para uma hora, meia hora e assim por diante. O ideal para aplicar a analgesia é com 5 a 6 centímetros de dilatação, quando a cabecinha do bebê já está visível (coroamento). Mas a mulher pode solicitar a injeção, caso esteja sentindo muita dor. Ela é então encaminhada para a sala de parto.

A partir do momento que ocorre o coroamento, o parto acontece rápido. Depois que o bebê nasce, a mãe fica por mais uma meia hora na sala de parto enquanto filho será avaliado pelo pediatra. Se ambos estiverem bem, a mãe pode amamentar o filho em seguida. Especialistas defendem que a amamentação seguida do nascimento é saudável para a mãe e para o bebê, pois ajuda no aprendizado do aleitamento, na criação de um vínculo entre os dois e reduz as chances de hipoglicemia do recém-nascido e de hemorragia uterina no pós parto.

Geralmente, o trabalho de parto na primeira gravidez pode ser mais demorado, durando, em média, entre 10 e 12 horas, com a dilatação evoluindo a cada uma hora. Enquanto isso, o feto vai se ajustando no canal de parto. O sucesso do parto vaginal dependerá da boa evolução desses fatores associados: a contração uterina, a dilatação do colo e a progressão fetal.

Como lidar com a dor no parto normal?

Um trabalho de parto pode demorar horas a fio, mas fique tranquila: a dor não estará presente durante todo esse tempo. Ela será mais e menos forte dependendo do estágio. E para alívio geral da nação, os médicos costumam fazer a analgesia justamente na hora que ela está mais intensa, já no estágio final.

O trabalho de parto é dividido em 3 etapas. Em cada uma delas, a dor é de um jeito. A primeira etapa é o início do trabalho de parto, quando a dilatação vaginal está com um tamanho entre 2 a 3 centímetros e as contrações acontecem duas vezes a cada 10 minutos. E entenda-se contração como dor. Elas começam devagar, ficam fortes e desaparecem. É uma dor suportável, que se assemelha a uma cólica muito forte. Conforme a dilatação vai progredindo, as contrações vão ficando mais frequentes, 4 a cada 10 minutos.

Essa já é a segunda etapa. Nessa fase, as dores podem incomodar. “É uma dor que começa na barriga e se irradia para a coluna. Nesta fase, geralmente, fazemos a analgesia”, explica o ginecologista e obstetra Flavio Garcia de Oliveira, pai de Gabriel, Manoela, Pedro, Lucas e Maria Fernanda. Diferente da anestesia, que deixa a pessoa sem movimentos, a analgesia feita no parto normal é um anestésico injetado na espinha. Não existe uma hora certa para se aplicar na mulher, depende do limiar de dor de cada um. Por isso, respire aliviada. Só não vale dizer que a dor está insuportável no primeiro minuto do primeiro tempo. Quanto mais conseguir segurar, melhor. Quando a dilatação vaginal vai para 10cm, falta pouco para o bebê passar pelo canal de parto e começar a coroar (quando a cabeça do bebê enfim surge lá embaixo).

Terceira etapa: é o momento em que a mulher tem de fazer força para expulsar o bebê. Enfim, o bebê nasce! Você vai sentir uma cólica, pois o útero ainda está se contraindo para expelir os tecidos formados na gestação. Às vezes, quando a mulher amamenta, a dor pode ser maior ainda. Mais tarde, pode doer um pouco pra sentar, fazer xixi, mas provavelmente seu médico vai receitar analgésicos que aliviam até a recuperação total, que costuma acontecer depois de uns 3 ou 4 dias. A cólica uterina pode durar mais um pouco, até uma semana, principalmente durante a amamentação, quando ocorre a liberação da ocitocina.

Como é a recuperação do parto normal?

A recuperação do parto normal costuma ser menos dolorida e mais tranquila que na cesariana. A mãe já volta da sala de parto uma hora após ter o bebê. Tanto no parto normal como no cesárea, ocorre sangramento vaginal nos primeiros dias, por isso, não se esqueça de levar absorventes, de preferência do tipo noturno. Logo que vai para casa, você já pode retomar as atividades normais, mas sem exageros.

A região do períneo, preocupação de muitas mulheres, retoma rapidamente a elasticidade que tinha antes. Muitas mulheres têm medo de perder a sensibilidade e a continência, mas isso não acontece. Pouco tempo depois, o músculo já volta ao que era antes da gestação.

Humanização do parto

É uma tentativa de tornar o processo mais natural e com menos intervenções médicas — o que é muito positivo, desde que dentro de certos limites de segurança, claro. Tem-se como objetivo dar à mulher ampla autonomia durante o parto e minimizar as intervenções, focando no acolhimento da mãe, dando direito para a grávida de escolher o acompanhante durante o trabalho de parto — o que é um direito assegurado no Sistema Único de Saúde (SUS)  e poucos sabem —, decidir qual a posição para dar à luz, local e a qualidade do ambiente. “O parto humanizado não está exatamente relacionado à sua técnica, mas sim ao acolhimento da gestante”, afirma Cristina Albuquerque.

Quer saber mais sobre o assunto? Assista aos vídeos do Dr. Igor Padovesi, da nossa série semanal Gravidez Sem Neura, que vai ao ar toda quarta-feira:


Consultoria: Igor Padovesi, ginecologista e obstetra, pai de Beatriz e Guilherme, realiza partos e cirurgias nos principais hospitais de São Paulo, principalmente no Albert Einstein, tem uma equipe especializada em partos normais. Tathiana Parmigiano, filha de Francisco e Rosangela, coordenadora do Setor de Ginecologia do Esporte pelo Departamento de Ginecologia e pela Disciplina de Medicina Esportiva da EPM/UNIFESP. Cristina Albuquerque, coordenadora do Programa de Sobrevivência & Desenvolvimento Infantil do Unicef, Cristina Albuquerque, mãe de Rafael Henrique, André Luiz e Arthur. Fernanda Cristina Ferreira Mikami, ginecologista e obstetra do Hospital das Clínicas, mãe de Giuliana.

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