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Cris Guerra emociona ao falar sobre criação do filho sem o avô: “Sem nunca terem se visto, se conhecem de dentro”

Os seis anos que separam eles parecem bem mais longos do que eventuais seis anos passados ainda no século XX

A convivência com os avós é muito importante para o desenvolvimento das crianças (Foto: Getty Images)

Meu pai não teve tempo de usufruir (nem de enlouquecer com) os avanços da tecnologia. Meu filho já nasceu neste mundo frenético, ao alcance dos dedos. Mas, embora em realidades diferentes, os dois parecem se encontrar em uma certa impaciência com a vida. A do meu filho, claro, consequência também do tempo em que ele vive. 

Mas a semelhança vai além. Vejo meu pai estampado no jeito metódico do Francisco. Em sua aversão ao desconhecido, como se precisasse ser conquistado por ele. Até na mesa do restaurante habitual, está lá meu pai de novo, na insistência do Fran em escolher sempre o mesmo prato – o que não me cabe criticar, já que esse também é um hábito meu. 

Francisco adora explorar na rede os vídeos de culinária, memes e curiosidades. Meu pai seguia madrugada adentro, aventurando-se em filmes já pela metade, emendando outro logo em seguida. Diante da tela, Francisco vira Fernando, mesmo que nunca tenham se encontrado. 

Tive a sorte de ter os dois, cada um a seu tempo. Também tive a sorte de conhecer os dois mundos, antes e depois da internet, que praticamente partem minha vida em duas. Na segunda, eu confesso, também desaprendi a esperar. Fala mais alto, porém, a lição sobre a autonomia do tempo, aprendida nos últimos anos. Não temos poder sobre ele e é melhor que seja assim.

Talvez seja justo na escolha da qualidade de seus tempos que os dois acabem se encontrando. Na capacidade de criar, com a ajuda de uma tela, seus mundos particulares, e neles dialogar com suas luzes e suas sombras. É estranho ver meu pai no meu filho, como é mágico ver a mim mesma também, nesses genes que se dão as mãos rumo à eternidade. Essa beleza dos dois que, sem nunca terem se visto, se conhecem de dentro. 

Meu pai tinha uma sabedoria extra no uso do seu tempo: dormia todos os dias depois do almoço. E assim se preparava para a segunda parte de sua jornada. Recentemente, resolvi me aventurar por esse luxo e fazer uma sesta depois do almoço. Descobri uma forma de dividir o dia em dois, com a sensação de que, ao contrário, ele finalmente se multiplica.

E é no sono, seja de dia ou de noite, que de vez em quando me reúno com os dois, meu pai e meu filho. Essa espécie de máquina do tempo então me leva ao impossível, para que eu possa acordar de novo e encarar a vida, com todas as suas impossibilidades.

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