Pais na linha de frente do combate ao coronavírus: a luta e o cuidado dobrado com os filhos em casa

Médicos infectologistas relatam apreensão no trabalho e contam como está sendo a rotina de cuidados antes de encontrar a família para garantir a segurança dos filhos em meio à pandemia do coronavírus

Resumo da Notícia

  • Na linha de frente, profissionais de saúde precisam ter cuidados extras antes de encontrar a família
  • A situação atual desses profissionais com filhos também levanta uma questão: é melhor manter as crianças em casa ou deixar com outro responsável?
  • Ivelise Giarolla e Gerson Salvador, ambos infectologistas, relatam quais medidas estão adotando para garantir a segurança em casa
 
Nesse momento, quem precisa sair de casa também precisa tomar alguns cuidados extras (Foto: Getty Images)

Não são todos que podem seguir o isolamento social frente à pandemia do coronavírus. Os funcionários que cumprem as chamadas funções essenciais, como médicos, enfermeiros, seguranças, entregadores de aplicativo, responsáveis pela limpeza e infraestrutura urbana, não conseguem se afastar do trabalho nesse momento e precisam de cuidados especiais para se proteger e garantir a segurança de toda a família. 

Na linha de frente no combate ao novo coronavírus, os profissionais de saúde enfrentam não só medo do próprio contágio pelo coronavírus, mas também a transmissão para a família. Infelizmente, os índices de contaminação entre esse profissionais é alto. O Conselho Federal de Medicina e a Associação Médica Brasileira orientaram os profissionais que atuam com questões não urgentes a fecharem seus consultórios, por exemplo.

Segurança em primeiro lugar

A situação atual dos profissionais de saúde com filhos levanta uma questão: é melhor manter as crianças em casa ou deixar com outro responsável? “Não tem um jeito certo e errado. É uma escolha muito particular de cada família. É muito fácil falar para separar as crianças, mas é preciso ver se isso é viável”, explica Ivelise Giarolla, médica infectologista e nossa colunista, mãe de Marina e Lorena. A médica desabafa que já sofreu muitas críticas por ter decidido manter as filhas em casa e chegou a ficar abalada, mas hoje, faz questão de esclarecer o assunto, até porque no seu caso, não tinha outra opção. 

Por trabalhar na área há muitos anos, Ivelise já mantinha cuidados ao chegar em casa: “Sempre tirei meu sapato, roupa, lavei as mãos e tomei banho na sequência”. Mas diante da situação global, aumentou essas medidas de prevenção. “Hoje, entro pela lavanderia, que designamos como área suja. Lá, já passo um produto no sapato e coloco na janela para ventilar. Se estou de tênis, vai para lavar. Nesse momento, já tiro a roupa e deixo também para lavar. Passo álcool em tudo o que coloquei a mão (maçaneta da porta, janela, máquina de lavar). Pego um desinfetante e passo pano no chão. Depois, vou direto para o banho, sem nenhum contato com as crianças”, conta. 

Não é só na rua que você precisa se proteger (Foto: Getty Images)

Após passar por todo esse processo, ela começa a circular pela casa. A profissional também tem cortado o contato físico com as meninas. “Infelizmente, uma coisa que tenho evitado é beijar e abraçar minhas filhas, isso tem me machucado muito”, desabafa. Ela percebe que as duas estão abaladas emocionalmente, mas esse período também possibilitou que estreitassem os laços. Como os horários de trabalho foram estendidos e o marido segue em home office, tem ajuda de uma babá, que não faz parte do grupo de risco e nem mora com alguém nessa faixa-etária. “Conversei com ela, que aceitou. Então, forneci máscara para uso no transporte público e álcool em gel para usar. Ela faz a mesma rotina que eu quando chega em casa antes de começar o serviço e tem horários alternativos de menos pessoas no transporte público”, comenta. 

Prevenir é o melhor remédio

Dr. Gerson Salvador, infectologista, pai de Laura e Lucas, também está passando por essa fase com os filhos. Ele reforça a questão de Ivelise, que a decisão depende da configuração familiar e apenas acrescenta que, se for possível, os pais não deixem as crianças sob cuidado dos avós e pessoas com doenças cardíacas ou pulmonares graves. “Em relação ao coronavírus, meu receio maior seria transmitir para os meus pais ou alguma pessoa mais velha do que as crianças”, pontua, uma vez que são do grupo de risco e tem maiores chances de desenvolverem complicações a partir da doença. Mas mesmo com os mais jovens, ele afirma que é essencial tomar todos os cuidados possíveis.

A higiene é mais do que nunca fundamental no combate ao coronavírus (Foto: Getty Images)

Além dos cuidados já citados ao entrar em casa, o especialista destaca as medidas de prevenção já estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como higiene correta das mãos, etiqueta respiratória, limpeza das superfícies com álcool 70%. Para ele, os adultos precisam seguir essas diretrizes mas também é fundamental ensinar às crianças. É bom também ter atividades de convivência dentro da família que permitam o contato nesse tempo, mesmo com a distância física. “O isolamento mexe com a afetividade e esse espaço de troca faz a diferença”, justifica.

Hora de conversar

O diálogo com o seu filho, mais do que nunca, é fundamental. É preciso falar sobre a pandemia e abrir espaço para que a criança se sinta confortável em fazer perguntas e expor os sentimentos. “Inevitavelmente, elas estão sendo expostas emocionalmente a tensão deste tempo. É importante refletir na maneira com a qual que estamos transmitindo nossas emoções, como intérpretes da realidade externa para que possamos ajudá-las, acolhendo primeiramente e ensinando a desenvolver habilidades emocionais”, acrescenta Tatiane de Sá Manduca, psicóloga e palestrante, mãe de Mateus.

As crianças sabem o que está acontecendo e é importante que os pais não tentem esconder (Foto: Getty Images)

Esse discurso precisa ser adaptado à idade do seu filho: vale explicar que a rotina voltará a ser estabelecida no futuro, mas que neste momento é preciso respeitar. Caso os pais fiquem separados da criança durante esse período, essa conversa é ainda mais necessária, e é válido encontrar maneiras de se manter “próximo”, como ligações por vídeo. “Sentir falta ou ficar entediada não é ruim, o nada é povoado de fantasias! É nele que temos espaço para a invenção e a criação”, garante. As crianças precisam aprender a lidar com os próprios sentimentos e essa crise mundial está trazendo essa chance.  

Por fim, vale ressaltar: essas dicas servem para quem necessita sair de casa por conta da profissão. Todas as pessoas que podem ficar em casa devem permanecer em isolamento. Seguindo a quarentena, você estará protegendo a sua família e de todos esses profissionais também. É o momento de ter empatia e entender que, mesmo separados fisicamente, apenas com a colaboração de todos será possível reduzir os danos do coronavírus de forma ampla. 

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