Cinquentou: mães aos 20, 30 e 40 anos contam como enxergam esse papel aos 50

Ter um filho é uma experiência transformadora por si só, mas como o passar do tempo, nós também mudamos como mulher e isso se reflete no maternar

Resumo da Notícia

  • A maternidade muda tudo, porém nós também mudamos ao longo da vida
  • Conversamos com mulheres que foram mães aos 20, 30 e 40 anos para entender como enxergam esse papel hoje, aos 50
  • A maturidade muda a forma de enxergar o mundo e traz um maternar mais leve

A maternidade muda tudo. Desde quando você lê na tela positivo – ou para os vintages – os dois risquinhos no teste de gravidez ou recebe a aprovação da adoção, algo já te transforma. Mas conforme os anos passam, nós também mudamos como pessoa, como mulher e até como mãe. As preocupações ganham novos focos, assim como os motivos de orgulho e alegria e é justamente disso que vamos falar aqui. 50 anos é um número bastante emblemático. Por alguns, muito comemorado, por outros até temido.

-Publicidade-
Veja como mulheres que foram mães com 20, 30 e 40 anos enxergam a maternidade hoje, aos 50 (Foto: iStock)

A maturidade agrega várias questões para a vida que também se reflete no maternar. Uma coisa é certa: a mãe que você é hoje, passados 50 anos de vida, não é a mesma de quando deu à luz com 20, 30 ou 40 anos. Mãe aos 24 anos de idade, Roberta Bento, hoje com 55, embaixadora da Pais&Filhos e fundadora do site SOS Educação, junto da filha Taís Bento, viu a realização desse sonho como um desafio, por conta da gravidez de altíssimo risco devido às sequelas de uma paralisia cerebral. Foi através da maternidade que ela encontrou um novo propósito: se comprometer de todas as formas possíveis para tornar esse mundo um lugar melhor para se viver.

Desde nova, ela entendia a importância do autocuidado para o bem-estar dela e da filha, porém a maturidade deixou outras questões e cobranças para trás. “A mudança que tive com o amadurecimento foi entender que cabe a mim exercer o papel de mãe da melhor maneira que eu puder, mas não posso garantir um pai. Foi difícil e dolorido esse aprendizado. Mas, ao mesmo tempo, libertador”, pontua.

A relação com Taís, atualmente, vai muito além de mãe e filha. Elas são amigas e sócias. “A maturidade tornou meu maternar mais equilibrado. Hoje tenho menos culpa ou remorso em tirar tempo para mim, ou dizer ‘não, isso eu não gosto/não quero’”, completa. Se a inocência dos 24 anos trouxe uma visão mais focada nos aspectos positivos da maternidade, Roberta afirma que os 55 trouxeram um maternar mais livre, mas faz questão de enfatizar que certas coisas nunca mudam. “Apesar dos 32 anos que a Taís já tem, ainda aviso que vai fazer frio, para ela não esquecer o casaco. Continuo a gostar de fazer as comidas prediletas dela. E seguimos gostando muito de viajar juntas, fazer passeios que são nossos”. Por isso, afirma que a maternidade vale muito a pena e faz questão de compartilhar isso com mulheres que desejam ter filhos: “Vejo com orgulho minha filha amadurecer forte e cheia de empatia pela minha história e pelo legado que ela está construindo também como mulher e profissional da educação”.

Tudo é novidade

Branca Helena Simonini, mãe de Andressa (sim, essa que você está pensando, a editora-executiva da Pais&Filhos) e Marcella, foi mãe aos 20 e aos 30 anos. Para ela, ter essa experiência mais jovem foi uma aventura extremamente gratificante. “Mudou muito a minha vida e muda até hoje. Eu falo que a Andressa é uma sobrevivente”, brinca. A pouca idade trouxe um maternar sem medo na primeira experiência. Já na segunda isso mudou, pois entende que bateu uma sensação de responsabilidade muito maior. “São dois processos diferentes. Com 20 anos foi muito mais curtido. Com 30 foi mais tenso”.

Assim como Roberta, Branca, atualmente com 57 anos, assume que as “neuras” e preocupações com as filhas continuam mesmo hoje, já mais velhas, embora tenha um lado de tranquilidade por estarem encaminhadas. “Acho que enquanto eu viver, vou me preocupar com elas”, diz. Enxergando a maternidade como uma bênção, ela afirma que a maior mudança de quando se tornou mãe para agora foi o amor, que só vem aumentando. “A maternidade é uma grande loucura desejável, que traz uma alegria imensa, com preocupação para a vida toda e é isso. A gente briga, ama, abraça, beija, quer matar, jogar pela janela… É o top do top! Só sabe o que eu estou falando quem é mãe… É incrível”, acrescenta.

Cris Guerra, comunicadora, escritora e produtora de conteúdo digital, que deu à luz Francisco aos 36 anos, concorda com esse ponto de vista. “Ser mãe é uma revolução na minha vida em todos os sentidos”, explica. Ela, que grávida de sete meses perdeu o parceiro após ele sofrer uma morte súbita, viveu uma mudança pessoal e profissional com o nascimento do filho. “O meu sonho de ser mãe se misturou com uma perda muito grande e isso acabou transformando a minha vida”. Cris conta que adiou o desejo de ser mãe, porque nunca se sentia pronta, mas diz ser grata pelo que a maternidade fez por ela: “Eu fui salva, porque o Fran me fez ter vontade de viver”.

Exaltando a importância da rede de apoio, a comunicadora não recebeu a maternidade de forma romântica, mas potente. “Se quanto mais você vive, mais você se vulnerabiliza, eu acho que a maternidade é isso elevado à máxima potência. A gente é muito vulnerável, e pelo fato de sermos humanos corremos vários riscos e quando temos um filho, a cada filho dobram esses riscos, porque é um outro ser humano que está ali se expondo”, afirma hoje aos 51 anos. Para ela, os anos tornaram mais claro que a relação de investimento e retorno não é de igual entre mãe e filho. “É uma relação em que a gente ama e se doa muito e a gente não sabe se esse amor virá de volta. Ser mãe é um exercício de coragem e entrega na vida”, fala e completa: “A vida está aí para ser vivida com todos os perigos, inclusive o perigo de ser maravilhosa”.

Investimento de risco

“A chegada de uma criança te empurra, te tira o lugar de ser a filha da mamãe e do papai para ser a mãe da filha”, é assim que Vera Iaconelli, psicóloga e psicanalista, enxerga a maternidade aos 56 anos de idade. Mãe de Gabriela e Mariana aos 32 e 35 anos, assume: “Tinham muitas imaturidades, muitas inseguranças, uma expectativa muito grande de ser uma mãe perfeita. Naquela época, eu não queria errar de jeito nenhum, porque eu não conseguia imaginar errar com um bebê ou uma criança”.

A maturidade traz um maternar mais leve e com menos culpa (Foto: Getty Images)

Porém, com o tempo aprendeu que o erro faz parte e é algo intrínseco e o encara de forma mais leve. “Hoje, eu curto muito mais, porque embora as preocupações existam, dá para compartilhar com dois adultos. São duas adultas na minha casa com quem eu converso, resolvo questões, que trazem um monte de novidades, formas diferentes de ver o mundo, de ver a vida, a relação com o corpo, amor, trabalho e a própria família”, justifica. Para Vera, não há a fase ideal para ser mãe em questão de idade, mas a fase ideal é aquela em que banca o seu desejo e essa experiência traz uma grande oportunidade de amadurecimento. “A graça de ser mãe para mim é justamente o que dessa experiência pode ter me transformado e o que eu posso ter marcado aí com eles de forma que eles levem uma vida que não diz respeito a mim, e que eu também leve uma vida para além deles. Eu aproveitei bem essa onda e cresci bastante”.

Rosana Boragina da Silva, mãe aos 25 de gêmeos, Camila e Felipe, e aos 42 anos de Júlia, já percebeu o impacto do tempo na própria experiência: “Com 42 anos, apesar de não esperar outra gravidez, foi muito bom, eu me senti segura e me cobrei menos. A maturidade ajudou muito, tive mais paciência!”. A primeira experiência trouxe muitas dúvidas e a sensação de realização, mas a segunda deixou um maternar mais leve. “Hoje, aos 50 anos, tento ser mais amiga do que ficar exigindo deles o tempo todo. Antes eu achava que tinha que ser rígida para que eles me escutassem e obedecessem, hoje sei que cada um tem sua própria identidade, cada um tem seu jeito de ser, graças a Deus são pessoas de bem e eu me divirto muito com eles”. Por isso, garante: “Ser mãe é a melhor parte de mim. Amo meus filhos e agradeço muito a Deus”.

Assim como Rosana, Elaine Xavier realizou o sonho da maternidade de forma mais tardia, aos 41 anos de idade. Ela, que adiou essa vontade para focar nos estudos e trabalho, deu à luz gêmeos, Gustavo e Ademyr, há 12 anos. Hoje, aos 53 anos, como bancária aposentada entende que os anos tornaram mais fáceis os cuidados com os meninos, principalmente em relação à saúde. “Enxergo a maternidade como uma dádiva. Hoje eles já não exigem tanto a minha companhia, mas continuo cuidando deles com responsabilidade e confesso, com muito mimo”, conta. Para ela, a maternidade mudou tudo e mesmo que pense que mais jovem teria mais disposição para acompanhá-los, destaca: “Minha experiência de vida ajuda a dar a eles bons exemplos de conduta e responsabilidade”.

Sempre é tempo

Madalena Albuquerque, que atua nas áreas de Arquitetura, Gastronomia e Docência do ensino superior, adiou o desejo de ser mãe para trabalhar com os projetos de vida. “A autonomia financeira era prioridade em detrimento de planos de casar e constituir uma família”, lembra. Mas aos 52 anos ela realizou o sonho com o nascimento de Maria Rita e comemora a conquista: “A maturidade nos faz ter mais tranquilidade ao lidar com todas as questões que envolvem a educação e evolução de uma criança”. Antes, sempre correndo e sendo absorvida em jornadas extensas e sem horários definidos de trabalho, hoje, aos 58 anos, afirma que passou a priorizar o tempo em família.

Com criação centrada no diálogo, Madalena diz: “Foi a melhor decisão que tomei na minha vida. É interessante como a sociedade cobra de nós mulheres, uma curva cronológica para cumprirmos papéis predefinidos. Hoje com as tecnologias, vivemos mais tempo e com mais saúde que as gerações passadas, então se é possível sermos mães com mais idade, por que não? Dificuldades todas as famílias com filhos passam independentemente da idade que estejam. A maternagem ativa e consciente não depende da idade e sim do querer sermos mães da melhor forma que pudermos, com nossas vantagens e/ou limitações”.

Ser mãe é transformador, mas com o tempo nós também mudamos e isso se reflete na maternidade (Foto: iStock)

Os 50 anos realmente chegam com tudo. Um estudo científico guiado pelos economistas David Blanchflower e Andrew Oswald apontou que a felicidade ao longo da vida segue o formato de um “U”, ou seja, que as pessoas começam a vida bastante felizes e com o tempo isso vai diminuindo, até que a curva volta a subir exponencialmente por volta dos 50 anos. De acordo com os pesquisadores britânicos, a queda do gráfico se daria pela enorme expectativa que os jovens criam por volta dos 20 anos e acabam não se concretizando ao longo dos anos seguintes. Já após os 50 anos, livres de pressão para montar uma família e carreira, a tendência é que os números voltem a subir, tanto para os homens quanto para as mulheres. Aos 53 anos de idade, a Pais&Filhos tem certeza que a maternidade muda tudo para melhor, independentemente da fase de vida. E que venham mais 20, 30, 40, 50 anos juntos para formar famílias cada vez mais felizes.

No seu tempo

Prós e contras da gravidez em cada idade

20 anos

  • Fisicamente: fertilidade feminina em alta e energia de sobra
  • Psicologicamente: hora de definir os objetivos de vida. Atenção para os sentimentos e prioridades
  • Financeiramente: o casal precisa ter em mente que os gastos com as crianças são bem maiores que aqueles do dia a dia. É importante ter uma reserva para emergências

30 anos

  • Fisicamente: há uma queda na fertilidade. A partir dos 35 anos, o cenário fica mais complicado
  • Psicologicamente: autoconhecimento e maturidade ajudam a administrar a chegada da maternidade, mas podem criar um dilema com a expansão profissional
  • Financeiramente: as despesas ainda são grandes e é necessário definir as suas prioridades

40 anos

  • Fisicamente: há uma queda considerável na taxa de fertilidade, embora seja possível driblar com técnicas de reprodução assistida
  • Psicologicamente: você provavelmente já plantou, colheu e aproveitou dos frutos conquistados com a carreira, diminuindo o conflito entre o lado pessoal e profissional
  • Financeiramente: a carreira costuma estar mais consolidada, facilitando a adaptação

50 anos

  • Fisicamente: as chances de gravidez natural existem, mas são bastante baixas, mesmo com a reprodução assistida
  • Psicologicamente: a maturidade e vivência permitem que a mulher dedique as energias e aprendizados para a maternidade, mas a luta contra as questões fisiológicas pode afetar
  • Financeiramente: a carreira pode estar no auge ou ameaçada pelo desemprego, varia conforme a profissão